O PSD sacramentou nesta segunda-feira (30) o nome de Ronaldo Caiado como seu candidato a presidente da República, Não se trata apenas do lançamento ao Palácio do Planalto de um governador com grande aprovação popular ou resolvendo uma disputa interna. Estará liderando ao centro da sucessão de 2026 um personagem que atravessa a história da direita brasileira nas últimas décadas: herdeiros de uma dinastia política goiana, líder ruralista forjado no embate contra a reforma agrária, adversário histórico de Lula, gestor bem avaliado em seu Estado e, agora, aspirante a fiador de uma alternativa conservadora para o país.

A candidatura carrega uma ironia histórica. Em 1989, na primeira eleição direta para presidente após a ditadura, Caiado já havia tentado o Planalto pelo PSD, uma versão antiga que não carrega parentesco com a atual. Ficou no décimo lugar, com menos de 1% dos votos, e apoiou Fernando Collor no segundo turno. Trinta e sete anos depois, reaparece diante do mesmo Luiz Inácio Lula da Silva que derrotou a eleição —hoje presidente, novamente adversário e ainda o principal obstáculo a ser derrotado.

O Brasil que Caiado encontra agora é outro. O personagem, nem tanto. Mudaram a estatueta e a embalagem. Permaneceram a ênfase na autoridade, a ligação orgânica com o agronegócio, a intolerância política com a esquerda e a aposta num discurso duro sobre segurança pública. O que o governador de Goiás tenta provar é que essa combinação, que deu uma enorme força regional, também pode produzir musculatura nacional. Essa leitura é uma inferência baseada em sua trajetória política, nas bandeiras que o projetaram e no discurso que sustenta sua pré-candidatura.

Herdeiro de uma poderosa linhagem política

Ronaldo Caiado não é um fenômeno recente. Vem de uma das famílias mais antigas e influentes da política goiana, com presença no poder local desde os séculos 18 e 19. O sobrenome atravessa a formação do estado e aparece associado tanto à grande propriedade rural quanto ao comando político de Goiás em diferentes etapas da história brasileira. Entre seus antepassados ??mais influentes estão Antônio José Caiado, Antônio Ramos Caiado, o “Totó Caiado”, e Brasil Ramos Caiado, todos ligados ao mando político estadual em épocas distintas.

Essa origem ajuda a explicar. Caiado nunca foi estranho, nunca foi antissistema, nunca foi estranho às engrenagens da política tradicional. Ao contrário: nasceu dentro delas. Sua trajetória é a de alguém que conseguiu traduzir uma herança política em linguagem contemporânea, sem abandonar completamente o espírito de sua formação. Essa interpretação decorre de sua origem familiar, da continuidade de sua carreira e institucional de sua inserção em partidos tradicionais da direita.

Principais momentos da vida política de Ronaldo Caiado.

Principais momentos da vida política de Ronaldo Caiado. Arte Congresso em Foco

A UDR e o país visto da porteira

Se a família o deu sobrenome, a União Democrática Ruralista o deu rosto político. Foi na fundação e na presidência da UDR, entre 1987 e 1989, que Caiado se projetou nacionalmente como uma das vozes mais agressivas da ocorrência conservadora à reforma agrária.

Ali nasceu o personagem que ainda o acompanha. Caiado emergiu como símbolo do ruralismo combativo, defensor inflexível da propriedade privada, adversário do MST e representante de um setor que via a democratização também como ameaça à estrutura fundiária do país. A UDR não foi uma etapa simples de sua carreira. Foi uma usina ideológica de sua vida pública. Essa é uma inferência sustentada pelo papel que a própria biografia oficial atribuída à UDR em sua projeção nacional e por sua atuação posterior como um dos quadros mais identificados com a bancada ruralista no Congresso.

Caiado em 1988, quando liderou a UDR.

Caiado em 1988, quando liderou a UDR. Luciano Andrade/Folhapress/Arquivo

Lula, um adversário de décadas

A rivalidade com Lula é quase uma linha contínua em sua trajetória. Desde que se enfrentaram nas urnas, ainda na época das cédulas de papel, em 1989, a hostilidade entre eles só se adensou. Em 2015, Lula processou Caiado por calúnia, injúria e difamação depois de ataques cometidos pelo então senador. O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal e ajudou a dar forma jurídica a uma animosidade que já era política. As ações foram rejeitadas sob o entendimento de que as declarações estavam cobertas pela imunidade parlamentar.

No atual mandato presidencial, novo episódio de confronto. Em reunião com governadores em que se discutia a PEC da Segurança Pública, Caiado fez críticas duras à proposta do governo federal. Lula respondeu com ironia, dizendo ter conhecido “o único Estado que não tem problema de segurança pública”, numa provocação aos números apresentados pelo governador goiano.

Caiado não ajuda a baixar a temperatura. Em julho de 2025, afirmou que sua “primeira medida” seria “derrotar o Lula”. Em outra ocasião, perguntou: “Quem é Lula para falar de democracia?”. Também disse que o presidente “não ganha uma eleição no segundo turno”.

Faça apoio a Collor ao impeachment de Dilma

A trajetória parlamentar de Caiado mostra sua facilidade para se adaptar aos diferentes ciclos da política brasileira. Em 1992, quando a Câmara autorizou a abertura do processo de impeachment de Fernando Collor, Caiado esteve entre os poucos deputados que votaram contra a saída do presidente . À época, já havia apoio de Collor no segundo turno de 1989.

“O cidadão simples lá do interior sabe muito bem que há uma montagem, uma farsa que não convence ninguém. Isso nada mais é fazer que um golpe pela tomada ao poder, que parte de quem não tinha competência para ganhar na urna e não se curvou diante da decisão maior em 1989”, discursou o parlamentar goiano, então deputado do PFL, antes da votação histórica na Câmara.

Mais de duas décadas depois, como senador e líder do DEM, assumiu posição oposta no processo que derrubou Dilma Rousseff. Foi um dos defensores mais intransigentes do impeachment da petista.

“Ela utiliza todo o aparato de governo, o avião, o helicóptero, toda a segurança para fazer uma visita político-partidária ao ex-presidente Lula. Acenando da varanda do apartamento dele, o gesto, o apoio que ela dá a um cidadão que está sendo investigado pela Operação Lava Jato. Jamais um presidente da República, na liturgia do cargo, poderia ir lá prestar solidariedade ao ex-presidente. Ela feriu todas as regras da prática do exercício da presidência da República, afrontou a maioria dos brasileiros”, discursou já como senador.

Bolsonaro: rompimento, mágoa e reaproximação

Com Jair Bolsonaro, a relação foi mais assustadora. Caiado o apoiou, rompeu na pandemia e depois voltou a cortar sua base. A ruptura ocorreu em 2020, quando Bolsonaro sabotava medidas de isolamento e minimizava a gravidade da covid-19. Médico, Caiado reagiu de forma pública, criticou o então presidente e se colocou no campo oposto ao enfrentamento sanitário. Bolsonaro não esqueceu. Anos depois, voltaria a chamá-lo de “covarde” por causa daquela divergência.

Mas a política da direita brasileira se reorganizou em torno de Bolsonaro, mesmo com o ex-presidente inelegível. Caiado entendeu isso. Nos últimos meses, fez acenos mais claros ao bolsonarismo, participou de atos pró-anistia e pró-Bolsonaro, abraçou a pauta da anistia aos condenados pelos ataques de 8 de janeiro e prometeu que essa seria uma das primeiras medidas de um eventual governo.

Caiado não é bolsonarista no estilo. Não cultive pose de outsider, não fale como quem despreza as instituições, não transforme o improviso em linguagem política. Ao contrário: reivindica experiência, ostenta resultados e fala com o peso de quem já governou. Mas, sem conteúdo, as distâncias diminuem. Sua trajetória é marcada por posições duras em relação à esquerda, ao MST, às pautas agrárias, à segurança pública e, mais recentemente, pela defesa da anistia para os envolvidos no 8 de Janeiro.

Caiado e Bolsonaro chegaram a romper durante a pandemia, mas reagiram depois.

Caiado e Bolsonaro chegaram a romper durante a pandemia, mas reagiram depois. Pedro Ladeira/Folhapress

A longa marcha partidária até ao PSD

A trajetória partidária de Caiado mostra mudança de siglas sem ruptura de campo. Foi candidato à Presidência pelo antigo PSD em 1989, passou pelo PDC, PFL e DEM, ingressou no União Brasil e agora retorna ao PSD — desta vez, o partido comandado por Gilberto Kassab, sem relação orgânica com a legenda de sua candidatura do fim dos anos 1980.

Sua saída do União Brasil, no último mês de janeiro, foi fruto de design. No partido, sua candidatura presidencial enfrentou resistências internas, indefinição e concorrência pelo espaço. No PSD, encontrou ambiente mais favorável. A decisão de Ratinho Junior de permanecer no Paraná e desistir da corrida presidencial abriu caminho para que Caiado se tornasse o nome natural da legenda em 2026.

Uma goiana de vitrine

Se Caiado tem hoje um passaporte para tentar o Planalto, ele foi emitido em Goiás. É ali que construiu sua principal credencial: um governador capaz de entregar resultados e transformar desempenho administrativo em capital político.

A pública é sua vitrine mais poderosa em termos de segurança. O governo goiano afirma que, na comparação entre 2018 e o primeiro semestre de 2025, houve queda expressiva nos principais indicadores criminais, com reduções superiores a 90% em alguns tipos de roubo e acima de 60% nos homicídios. Caiado transformou esses números em marca pessoal e em argumento central para se diferenciar de Lula na agenda nacional da segurança.

Mas a vitrine não se resume ao combate ao crime. Na educação, Goiás conquistou o primeiro lugar no Ideb 2023 entre as redes estaduais no ensino médio e nos anos finais do ensino fundamental. Na economia, o estado passou a exibir melhora no emprego, queda da informalidade e recuperação de indicadores fiscais. Na saúde, o governo divulga redução da fila de cirurgias eletivas e apresenta o Complexo Oncológico de Referência do Estado de Goiás, o Cora, como uma de suas obras simbólicas. Na área social, o chamado Pacote Social, prorrogado em parceria com a primeira-dama Gracinha Caiado, tornou-se peça importante da ampliação de sua base política.

O governador mais bem avaliado do país

A força de Caiado em Goiás não é apenas impressão política. É mensurável. No levantamento da AtlasIntel divulgado em dezembro de 2025, ele apareceu como o governador mais bem avaliado do país, com 80% de aprovação, à frente de Rafael Fonteles, do Piauí, e Helder Barbalho, do Pará. Em pesquisas locais, os números ainda são mais robustos: a Genial/Quaest registrou 88% de aprovação em agosto de 2025, e o Paraná Pesquisas registrou 85,6% em dezembro do mesmo ano, contra 10,9% de desaprovação.

Esses dados ajudam a explicar por que Caiado acredita poder competir nacionalmente. Poucos governadores chegam à largada presidencial com níveis tão altos de popularidade e com uma narrativa tão organizada de eficiência.

As sombras da vitrine

A boa avaliação, porém, não significa ausência de desgaste. A principal polêmica recente foi a relatada, em primeira instância, por abuso de poder político nas eleições municipais de 2024, episódio posteriormente revisto pelo TRE-GO, que atrasou a inelegibilidade, mas manteve multa. O caso deu munição aos adversários e reforçou a crítica do uso político da máquina pública.

Também há críticas ao estilo centralizador do governador, ao peso político da primeira-dama nas políticas sociais e ao contraste entre a comunicação muito eficiente da gestão e problemas persistentes em áreas sensíveis. Esse é um ponto em que a vitrine encontra seus limites: um governo pode ser popular e, ainda assim, deixar pelo caminho zonas de opacidade, concentração de poder e tensões mal resolvidas. A primeira frase do parágrafo é factual; a segunda é interpretação jornalística a partir do conjunto dos episódios.

O eleitor que ele procura

Caiado fala diretamente ao agronegócio, que não é apenas um setor a conquistar, mas o lugar de origem de sua identidade política. Busca também o empresário conservador, os candidatos que priorizam a segurança pública e uma parcela da direita que rejeita o PT, mas deseja um nome menos errático e menos emocional do que Bolsonaro. Essa leitura deriva de sua biografia, da centralidade do agro em seu discurso e dos acenos simultâneos ao conservadorismo institucional e ao bolsonarismo.

Seu discurso parece mais com o de Jair Bolsonaro do que com o de Flávio Bolsonaro no conteúdo: antipetismo, exaltação da ordem, desconfiança da esquerda, valorização do campo e aposta em soluções duras para o crime. Difere, porém, na forma.

O que a decolagem

O obstáculo central de Caiado é simples: o Brasil o conhece menos do que Goiás o aprova. Ele chega a 2026 com uma base regional sólida, mas ainda sem densidade nacional elaborada aos nomes mais fortes do tabuleiro. Nas pesquisas presidenciais, continua atrás dos principais polos do cenário.

Para crescer, será necessário ampliar o conhecimento fora do Centro-Oeste, consolidar palanques em outras regiões, manter o diálogo com o eleitor bolsonarista sem se deixar engolir por Bolsonaro, evitar que a pauta da anistia ou aprisione no passado e convencer setores moderados de que não é apenas um líder ruralista reembalado para a sucessão presidencial. Mais do que isso: viabilizar-se fora da polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro como um nome antagônico ao primeiro, mas que não se confunda com o segundo. As pesquisas nacionais, até aqui, mostram que esse caminho ainda está longe de ser resolvido. informações do Congresso em Foco