O caso envolvendo o financiamento de “Dark Horse”, filme internacional sobre Jair Bolsonaro, veio à tona nesta semana em reportagem do The Intercept Brasil, que divulgou áudios, prints de conversas e documentos sobre tratativas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Nas mensagens, Flávio aparece tratando de repasses para a produção e cobrando pagamentos ao banqueiro.
Depois da divulgação, Flávio admitiu, em entrevista à GloboNews, que menciou ao negar relação com Vorcaro. O senador atribuiu a negativa anterior a um contrato de confidencialidade vinculado aos investidores do filme, documento que não foi apresentado publicamente.
O caso envolve ainda o deputado Mário Frias (PL-SP), produtor executivo do filme; o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-RJ); a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme; a Entre Investimentos e Participações; e o Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas.
Flávio negou relação com Vorcaro
Antes da publicação dos áudios e mensagens, Flávio negou publicamente a relação com Vorcaro. Na quarta-feira, horas antes da reportagem, foi questionado por um repórter do Intercept sobre a participação do banqueiro no filme e classificou a vinculação como “mentira”.
Na quinta-feira (14), admiti que não disse a verdade. “Eu menti. Eu poderia descumprir uma cláusula contratual? Isso gera multa, isso gera exposição dos investidores”, afirmou na GloboNews.
O senador disse que só passou a porque falar as conversas se tornaram públicas. “Tenho contrato de confidencialidade. Estou falando disso agora porque veio à tona, não tem mais como negar”, declarou.
Flávio não apresentou o contrato nem informou quem o assinou, quais investidores eram protegidos pelo sigilo, qual multa estava prevista e se ele era parte formal do acordo.
A primeira nota de Flávio
Na primeira ocorrência pública, Flávio afirmou que buscava com Vorcaro recursos privados para um projeto privado.
“Toda essa história que está sendo veiculada agora nada mais é do que um filho procurando investidores privados para fazer um filme privado sobre a história do seu próprio pai. Zero de dinheiro público, zero de Lei Rouanet”, disse.
Na mesma manifestação, afirmou ter conhecido Vorcaro em dezembro de 2024, quando, segundo ele, “não havia absolutamente nenhuma acusação contra ele”.
O ponto passou a ser questionado porque a relação contínua em 2025, quando o Banco Master já era alvo de desconfianças no mercado, de fiscalização do Banco Central e, às vésperas da prisão de Vorcaro, de investigação criminal sigilosa. A PF prendeu o banqueiro em 18 de novembro de 2025, em operação sobre fraude no Sistema Financeiro Nacional.
Mensagens mostram cobrança e tratamento próximo
As conversas atribuídas a Flávio mostram o senador cobrando Vorcaro por pagamentos relacionados ao filme. Em mensagem enviada às vésperas da prisão do banqueiro, o senador o chama de “irmão” e escreve:
“Estou e estarei contigo sempre, não tenha meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”
Em outra mensagem, Flávio disse saber que o banqueiro enfrentava uma situação difícil. O trecho passou a ser questionado porque, em sua justificativa pública, o senador afirmou que não sabia de irregularidades envolvendo Vorcaro quando o conheceu.
Flávio também menciona compromissos de produção com Jim Caviezel, escalado para interpretar Jair Bolsonaro, e o diretor Cyrus Nowrasteh. Disse ainda que a produção não poderia “vacilar” nem deixar de honrar compromissos, sob risco de “perder tudo”.
O que falta é claro é que Flávio acabou de investir na produção ou se participou da articulação financeira dos repasses.
Eduardo, Oriente Médio e fundo nos EUA
As mensagens também mencionam Eduardo Bolsonaro, que esteve no Oriente Médio em agenda política no período de parte das conversas. Uma referência importante porque Eduardo aparece em outra frente do caso: a PF pode apurar se recursos associados ao filme ter despesas bancadas dele nos Estados Unidos, hipóteses negadas pelo ex-deputado.
Na GloboNews, Flávio foi questionado sobre o envio de dinheiro para um fundo administrado por advogado ligado a Eduardo. Disse não conhecer os detalhes: “Eu não sei de detalhes. Esse advogado é gestor desse fundo (…) é uma pessoa de confiança do Eduardo.”
Descobri na casa de Vorcaro
Outro ponto revelado nas mensagens é a tentativa de aproximação de Jair Bolsonaro de Vorcaro. Segundo o Intercept, Mário Frias pediu a Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, que falasse com o banqueiro para viabilizar uma exibição de documentário em sua casa.
Frias escreveu: “Irmão, vamos fazer a exibição do documentário na casa do D (Daniel Vorcaro) com JB (Jair Bolsonaro)”.
Thiago Miranda completou, segundo a reportagem: “Flávio e Mário me pediram isso. Querem levar o presidente na sua casa para assistirem juntos com você o documentário.”
O nome do filme não é citado nas mensagens. A reportagem aponta que provavelmente se tratava de “A Colisão dos Destinos”, documentário sobre Bolsonaro produzido por Frias. Vorcaro respondeu: “Vamos marcar sim.” Não há confirmação de que o encontro aconteceu. Flávio diz que a reunião não aconteceu e negou ter organizado a exibição.
O orçamento e os valores do filme
As reportagens mencionam dois patamares: cerca de R$ 134 milhões, atribuídos à negociação mais ampla entre Flávio e Vorcaro, e aproximadamente R$ 61 milhões, apontados como valor já pago ou identificado em operações ligadas ao projeto.
Segundo o Intercept, ao menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 60 milhões na cotação da época, foram repassados ??entre fevereiro e maio de 2025. Ainda não é claro se esse valor representa o total desembolsado, uma primeira parcela ou apenas a parte já rastreada.
O orçamento atribuído a “Dark Horse” supera valores de produções brasileiras recentes de repercussão internacional. Vencedor do Oscar em 2025, “Ainda Estou Aqui” teve orçamento estimado em US$ 8,9 milhões. “O Agente Secreto”, produção brasileira de grande repercussão internacional, teve orçamento estimado em US$ 5,6 milhões.
As versões de Mário Frias
Após a revelação das tratativas, Mário Frias e a Go Up Entertainment, produtora do filme, negaram que a produção cinematográfica recebeu recursos de Daniel Vorcaro ou do Banco Master.
Na primeira manifestação, Frias afirmou que “não há um único centavo” de Vorcaro em “Dark Horse”. Também disse que a produção era uma “superprodução em padrão hollywoodiano”, feita com “100% de capital privado” e “sem um único real de dinheiro público envolvido”.
Mais tarde, apresentou outra explicação. Segundo ele, não havia contradição, mas “diferença de interpretação sobre a origem formal do investimento”.
Pela segunda versão , Vorcaro e o Banco Master não apareceram como investidores formais porque a relação jurídica teria sido feita com a Entre Investimentos e Participações, uma empresa distinta. Frias também afirmou que os recursos captados foram usados ??exclusivamente no desenvolvimento do filme.
A mudança tornou-se uma peça central do caso. O ponto a esclarecer é se a empresa é atuosa como investidora independente ou como envolvida em recursos ligados a Vorcaro.
A rota Entre-Vorcaro-Havengate
A Entre Investimentos e Participações aparece nas apurações como empresa ligada à rota do dinheiro destinada a “Dark Horse”. Segundo reportagens baseadas em dados do Coaf, receberam recursos de fundos investigados pela PF no caso Master e teriam repasses intermediados relacionados ao filme. Isso não significa, com as informações públicas disponíveis, que a Entre pertencesse formalmente a Vorcaro.
A segunda peça da rota é o Havengate Development Fund LP, sediado no Texas. Parte do dinheiro teria sido limitada entre para esse fundo nos Estados Unidos, apontada como ligada aos aliados de Eduardo Bolsonaro.
O caminho descrito passa por pelo menos três etapas: recursos atribuídos a Vorcaro ou a estruturas ligadas a ele; entrega por meio da Entre; e envio ao Havengate, fundo associado à gestão financeira do projeto.
É preciso esclarecer quem decidiu usar o fundo, quem autorizou os pagamentos, qual contrato ligava o Havengate ao filme, quem eram os cotistas e como os gastos foram prestados à produção.
Eduardo nega ter recebido recursos
A Polícia Federal também apura se valores apresentados como financiamento de “Dark Horse” podem ter custeado despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Ele nega.
“A história que recebi dinheiro do fundo de investimento não se sustenta e é tosca. Meu status migratório não permitiria, se isso tivesse acontecido o próprio governo americano me puniria.”
O ex-deputado também disse que sua participação é limitada à cessão de direitos de imagem. “Não exerço qualquer posição de gestão ou emprego no fundo, apenas cedi meus direitos de imagem”, declarou.
Eduardo afirmou ainda que convidou seu advogado Mário Frias para conhecer a atuação do escritório em gestão patrimonial, fundos de investimento e imigração. Segundo ele, “o escritório cuida apenas da gestão burocrática, financeira e jurídica dos recursos”.
A investigação, porém, não se restringe necessariamente ao pagamento direto. Uma das perguntas é que houve benefícios indiretos, como custeio de despesas pessoais, jurídicas, logísticas, de moradia, viagens ou atividades nos Estados Unidos.
De onde vem o dinheiro
A origem dos recursos se tornou relevante porque Vorcaro é investigado no caso Banco Master. A Operação Compliance Zero apura suspeitas de crimes contra o sistema financeiro, gestão fraudulenta, gestão temerária, lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa.
Uma das frentes envolve suspeitas sobre carteiras de crédito sem último e operações financeiras entre o Master e o BRB, banco público do Distrito Federal. A PF afirma que os envolvidos do Banco Master criaram carteiras de crédito sem lastro real, depois comercializadas com outras instituições financeiras, e que os documentos foram selecionados pelos investigadores como “insubsistentes”.
Até agora, não há comprovação pública de que o dinheiro destinado ao filme tenha origem em recursos públicos desviados. Mas a procedência dos valores é uma das questões a esclarecer.
Filme em ano
A dimensão política do projeto também faz parte do contexto. Flávio é pré-candidato à Presidência, e o filme sobre Jair Bolsonaro está previsto para ser lançado neste ano eleitoral.
Isso torna relevante quem financiou a obra, quais eram os contratos, se havia expectativa de retorno financeiro e se a produção poderia ter uso político durante a campanha.
O que falta explicar
A linha do tempo deixa perguntas objetivas:
- por que Flávio negou a relação com Vorcaro antes de admiti-la;
- quem assinou o contrato de confidencialidade relatado pelo senador;
- quanto foi prometido e quanto foi pago;
- quem os valores;
- qual foi o papel da Entre Investimentos;
- se a Entre atuoso como investidor independente ou interdependente de recursos ligados a Vorcaro;
- como o Havengate Development Fund entrou na operação;
- quem autorizou os pagamentos feitos pelo fundo nos EUA;
- por que Mário Frias negou dinheiro de Vorcaro e depois falou em “origem formal” do investimento;
- se Eduardo Bolsonaro teve benefício direto ou indireto;
- se todo o dinheiro foi aplicado no filme;
- se Vorcaro esperava retorno financeiro, acesso político ou alguma contrapartida;
- se a origem dos recursos tem relação com operações investigadas no caso Banco Master;
- se houve ou não encontro entre Jair Bolsonaro e Vorcaro para assistir ao documentário citado nas mensagens.
Até agora, contratos, extratos, notas fiscais e prestações de contas não foram apresentados de forma completa. Sem esses documentos, permaneceram sem resposta duas questões centrais: se o dinheiro atribuído a Vorcaro foi integralmente aplicado no filme e se a origem dos recursos tem relação com operações investigadas no caso Banco Master. Informacoes do Congresso em Foco



