Novo filme de Rodrigo Grota é inspirado na peça “As Três Irmãs”, de Tchekhov, e investiga o universo de uma aristocracia rural decadente em meio à ditadura militar no Norte do Paraná

“Quase Inverno” (2026, fic, 93 min), o novo longa-metragem do cineasta Rodrigo Grota, estreia nesta sexta, 03 de julho, às 20h30, no Espaço Villa Rica, em Londrina. Produzido pela Kinopus, o filme estreou em junho em Curitiba no circuito de festivais ao ser exibido na Competitiva Brasileira de Longas do 15ª Olhar Internacional de Cinema, um dos festivais mais importantes do Brasil voltado ao cinema independente.

Sobre o filme
Produzido por Guilherme Peraro, “Quase Inverno” foi rodado entre julho e agosto de 2024 em Londrina e Rolândia, no Norte do Paraná, com recursos do Edital de Arranjos Regionais promovido pela Ancine e Governo Federal em 2019 em parceria com a Prefeitura e Secretaria de Cultura de Londrina: “O filme mergulha no universo de uma certa aristocracia rural decadente, e foca nos dramas íntimos e pessoais que são ainda muito contemporâneos, como crise de identidade, de pertencimento, e dificuldades de lidar com sentimentos e traumas ligados ao passado”, explica o produtor Peraro.  

Escrito, dirigido e montado por Grota, “Quase Inverno” apresenta a história de três irmãs que voltam para a fazenda em que nasceram devido ao estado avançado da doença que acometeu a matriarca da família. Ao lado do único irmão que permaneceu na fazenda, elas recebem a visita de militares, o que desencadeia uma série de conflitos e memórias: “Queria fazer um filme centrado no trabalho dos atores e no texto, e que tivesse uma estética não naturalista. O que mais me interessava era a emoção das personagens, e como elas agiam em busca de uma certa autonomia”, observa Grota, que contou com a colaboração de Roberta Takamatsu no roteiro, e de João Vitor Moreno na montagem.

Origem da ideia
A ideia do filme surgiu em 2015, logo após as filmagens de “Leste Oeste”, primeiro longa de Grota: “Li a peça ‘As Três Irmãs’, de Tchekhov, e percebi que ali havia personagens que eu gostaria de investigar. Mas o que me interessava não era exatamente a trama da peça, e sim suas personagens principais e o subtexto de algumas situações dramáticas. Então criei uma trama totalmente original tentando dialogar esteticamente com Tchekhov sobretudo no destaque para as personagens femininas, e na construção de um universo interior de uma forma indireta”, descreve o diretor, que já vem estabelecendo uma relação mais próxima com o Teatro desde 2018, quando idealizou e coordenou o Dramátika, Núcleo de CineDramaturgia da Kinopus.

Ambientando nos anos 1970, logo após a geada histórica que promoveu uma crise na economia cafeeira no Norte do Paraná, “Quase Inverno” teve muitas cenas rodadas na Fazenda Bimini, que pertence à família Steidle, em Rolândia. “A fazenda é praticamente uma personagem do filme”, pontua Grota, que já havia rodado nessa mesma locação em 2009, quando dirigiu o curta “Haruo Ohara”. “A ideia era construir uma atmosfera atemporal, como se naquela fazenda o tempo não avançasse, permitindo que as personagens mergulhassem em seu universo interior”, explica o diretor, que contou com dois parceiros habituais na construção visual do filme: o diretor de arte Oswaldo Eduardo Lioi, e o diretor de fotografia Anderson Craveiro.

Elenco e equipe
No elenco principal estão intérpretes que já haviam trabalhado com Grota em produções anteriores como Ondina Clais, Simone Iliescu, Luiza Quinteiro, Guilherme Kirchheim, Esther Góes, Erom Cordeiro, Fernando Alves Pinto e José Maschio, além de Sabrina Greve: “O filme é todo voltado para os atores, e estamos muito felizes com nosso elenco. Foi realmente incrível ver como eles estavam em sintonia e conseguiram expressar inclusive aquilo que mais me fascina em uma personagem, que é o seu universo inconsciente”, ressalta o realizador.

Com direção de produção de Jackeline Seglin e coordenação de pós-produção de Caio Cesaro, “Quase Inverno” conta com figurinos de Barbara Doria e Gabriel Alvez, maquiagem e cabelo de Daira Adelaide. “De 2014 pra cá produzimos 10 longas e 8 séries pela Kinopus, o que nos permitiu descobrir uma série de talentos locais que colaboraram na criação desse e de outros projetos, comprovando que o audiovisual feito no interior tem uma qualidade cada vez maior”, observa Peraro, sócio-fundador da Kinopus, produtora e distribuidora estabelecida em 2004, e que em 22 anos conquistou mais de 70 premiações entre festivais nacionais e internacionais, realizando também coproduções com França, Argentina, Polônia e Chile.

A trilha sonora de “Quase Inverno” é composta por três peças eruditas que foram interpretadas ao violão por André Siqueira, músico e compositor londrinense. A pós-produção de som foi coordenada por Felipy Andrade, do estúdio Overdub, responsável pela edição de diálogos e mixagem. Otávio Santos criou o desenho de som junto ao diretor Grota, e Bruno Baltarejo foi o responsável pela pós-produção de imagem. O filme também contou com projeto gráfico de Guilherme Gerais, do Polimato Studio.

Sobre o diretor
“Quase Inverno” é o oitavo longa dirigido por Rodrigo Grota, idealizador da Kinoarte e sócio da Kinopus desde 2014. Nascido em Marília em 1979, e radicado em Londrina desde 1997, Grota dirigiu os longas de ficção “Leste Oeste” (2016) e “Passagem Secreta” (2021), além de longas documentais como “Isto (não) é um Assalto!” (2018), “Noite e Dia – Lima Barreto, Obra e Vida” (2023) e “O Homem Crocodilo” (2024), bio experimental de Arrigo Barnabé. Para TV e streaming, dirigiu seis séries, entre elas “Super Família” (2019, TV Cultura), “Cientistas Brasileiros” (2023, Curta!), e “Dramaturgias” (2024, TV Brasil). Entre os curtas, destaque para a Trilogia do Esquecimento formada pelos filmes “Satori Uso” (2007), “Booker Pittman” (2008) e “Haruo Ohara” (2010). Seu próximo longa a estrear será o documentário “João Antônio – Preciso contar tudo o que vi”, focado na vida e obra do escritor paulista João Antônio (1937-1996).

Serviço
Estreia do longa “Quase Inverno”, de Rodrigo Grota
Dia 03/07, sexta, às 20h30, no Espaço Villa Rica, em Londrina
Ingressos disponíveis no site do cinema (R$ 18,00 para todos): https://villarica.pagtickets.com.br/sessao-de-estreia-quase-inverno-03072026-20h30-nacional__24230/ 

Classificação Indicativa: 16 anos   

Sobre a estreia do filme Quase Inverno
Por Rodrigo Grota

Nesta semana teremos em Londrina a estreia do décimo longa produzido pela Kinopus: o filme Quase Inverno. Será uma estreia especial, pois teremos a presença de boa parte do elenco e da equipe no Olhar de Cinema, em Curitiba. Mas será também uma estreia simbólica, pois irá ocorrer 10 anos após a estreia do nosso primeiro longa: o filme Leste Oeste.

(Origem da ideia)
Comecei a pensar esse filme já durante as filmagens do Leste. Me perguntava: de onde surgiu o meu desejo de contar histórias? É difícil dar uma resposta precisa a um impulso que pode até ser inconsciente. Mas me lembrei de que na minha infância, nos anos 1980, eu e meu irmão mais velho ficávamos muito na cozinha, ao pé da mesa, ouvindo minha mãe conversar com suas amigas. Elas falavam de tudo: principalmente de seus amores, ilusões, desejos. Era todo um universo que eu desconhecia, e que já me fascinava.

Minha mãe era uma verdadeira contadora de histórias. Talvez tenha herdado dela essa prática do relato. Comecei a escrever histórias ainda muito novo: aos 7 anos, me lembro do prazer de criar universos ficcionais no caderno da escola. O primeiro livro que a minha mãe me deu eram as fábulas de Esopo. Então nessa época tudo o que eu escrevia era um pouco fábula.

Quase Inverno preserva esse aspecto fabular. Antes do filme, eu dizia aos companheiros de viagem que faríamos uma ‘fábula trágica’. Revendo o filme agora, sinto que ele oferece uma esperança pelo despertar, oferecendo uma possibilidade de renascimento. 

Daí talvez esteja o motivo do filme ser inspirado na peça ‘As Três Irmãs’, mas sua trama ser totalmente original. Achava que na peça do Tchekhov as irmãs percebiam que precisavam ir atrás dos seus desejos, mas não tinham essa liberdade: permaneciam presas a uma certa estrutura. No Quase Inverno, a ideia era que após toda a jornada, elas conquistassem certa autonomia.

Fiz Quase Inverno também porque queria investigar em um filme sentimentos que reconhecemos, mas aos quais não conseguimos dar nome. Para mim, isso é o mais mágico que o Cinema, enquanto linguagem e experiência, pode nos oferecer. Ele materializa algo que você sente, identifica, mas não consegue nomear, reduzir a algum conceito. Ele expande.

(Elenco)

Uma das coisas mais fantásticas dessa experiência foi ter trabalhado com um elenco que realmente me fascina. Já havia trabalhado com a Simone Iliescu em outros projetos (no Leste, e em séries), mas acredito que essa tenha sido a nossa parceria mais rica, pois ela constrói uma Elena extremamente enigmática e cheia de camadas. É uma personagem que luta para poder criar vínculos emocionais. Em sua luta por independência, ela se fechou ao mundo. Como agora estabelecer relações em um mundo que não permite ser vulnerável?

No caso da atriz Ondina Clais, havíamos trabalhado um ano antes, em 2023, na adaptação da peça Vestido de Noiva para a nossa série Dramaturgias. Ondina é uma energia em constante expansão. E é muitas coisas ao mesmo tempo. A sua Catarina, em Quase Inverno, é marcada por um desejo de ser vista, reconhecida. É uma personagem muito bonita, vaidosa, e que precisa ainda do olhar externo para atingir certo equilíbrio interno. E Ondina criou essa personagem de forma visceral. 

Com Guilherme Kirchheim, trabalho já há 14 anos. É a parceria mais antiga dentro do elenco. Nosso primeiro filme foi o curta O Castelo, vagamente inspirado em Kafka. Kirchheim cria um Ariel frio, estratégico, e ambicioso, exatamente como eu havia imaginado. Queria que ele fosse uma espécie de herói de um filme de Visconti, que caminha para a sua autodestruição de forma lúcida, porém contínua. E Kirchheim soube muito bem criar essa máscara para a personagem: algo transparente, porém inacessível.

E há a irmã mais nova entre as três: Valentina, interpretada por Luiza Quinteiro. Nosso primeiro set foi há 9 anos, em uma série. Valentina representa pra mim a síntese do filme: ela passou por um evento traumático, presenciou algo que nunca realmente compreende: seria sonho? Imaginação? Ela é uma personagem que não tem uma âncora pousada sobre o mundo real. Ela vaga por espaços criados em sua mente. É uma personagem de certa forma sonhadora, e Luiza soube criar isso muito bem.

Para além dos quatro irmãos, tivemos no elenco atores fantásticos que contribuíram de forma essencial para o filme. Erom Cordeiro, Fernando Alves Pinto, Sabrina Greve, Esther Góes e José Maschio. Eles completam o universo ficcional de uma maneira muito espontânea, como se aquela família e aqueles militares realmente existissem. Gosto de como Erom, Fernando e Maschio, personalidades tão doces na vida, interpretam personagens mais duras, secas: é um contraste que enriquece o filme. E aprecio muito a forma pela qual Esther e Sabrina se apropriam de suas falas e apresentam outras possibilidades de interpretação. São atrizes que dominam o ofício de forma cativante.

Mesmo que seja um filme voltado para os atores, em Quase Inverno há um trabalho visual que nos exigia um leve deslocamento para o não naturalismo. Isso ocorre, porque os textos apresentam inicialmente uma camada mais real, e aos poucos apontam para algo mais subterrâneo, fugidio, um subtexto inconsciente para as personagens. Esse universo visual, portanto, seria composto por uma temporalidade que não é a do mundo presente, e sim a do mundo interno das personagens. Queria, portanto, uma espécie de retrato levemente impressionista, mas também um pouco onírico, quase irreal.

(Equipe)

Esse universo visual do filme foi criado em parceria com o diretor de fotografia Anderson Craveiro, o diretor de arte Oswaldo Eduardo Lioi, os nossos figurinistas Barbara Doria e Gabriel Alvez, e a maquiadora Daira Adelaide. A dificuldade, por um lado, era como recriar os anos 1970 no Norte do Paraná, mas também manter uma certa camada atemporal do filme. E acredito que eles tiveram êxito nessa construção.

Por fim, Quase Inverno é mais um filme que só foi realizado graças aos meus dois companheiros mais constantes no Cinema: o produtor Guilherme Peraro, meu sócio na Kinopus, e que conheci no set há 28 anos; e Roberta Takamatsu, minha esposa, e que também foi assistente de direção e colaborou no roteiro. Os dois leram todas as 7 versões de argumento, e depois todos os tratamentos do roteiro entre 2015 e 2024. E contribuíram de forma decisiva para os caminhos que o filme percorreu.

Agora o filme vai nascer e poderemos ouvir do público novas leituras e sensações a partir do universo ficcional que criamos. É um dos momentos mais mágicos dessa experiência de viver o Cinema. Compartilhar e depois poder ouvir. Sempre um aprendizado.