Em 18 de agosto de 2018, morria Kofi Annan, diplomata ganês que se tornou uma das figuras mais importantes da história das Nações Unidas e um símbolo da defesa do multilateralismo. Primeiro homem da África Subsaariana a comandar a ONU, Annan ocupou o posto de secretário-geral entre 1997 e 2006 e recebeu, ao lado da própria organização, o Prêmio Nobel da Paz em 2001.
A morte ocorreu aos 80 anos, em Berna, na Suíça, após uma breve doença. Segundo a Kofi Annan Foundation, sua família estava ao seu lado nos últimos dias. O desaparecimento do diplomata provocou manifestações de líderes de diferentes partes do mundo e trouxe novamente ao debate seu legado na defesa da diplomacia e de respostas coletivas aos grandes desafios internacionais.
Nascido em Kumasi, na então Costa do Ouro, atual Gana, em 8 de abril de 1938, Annan percorreu praticamente toda sua vida profissional dentro do sistema das Nações Unidas. Sua trajetória coincidiu com transformações profundas: descolonização africana, Guerra Fria, colapso da União Soviética, conflitos nos Bálcãs, genocídio em Ruanda, guerras no Oriente Médio, expansão da globalização e ascensão de uma ordem internacional fortemente marcada pelo poder dos Estados Unidos.
De Gana ao comando das Nações Unidas
Kofi Atta Annan nasceu quando Gana ainda estava sob domínio colonial britânico. O país conquistaria sua independência em 1957, sob a liderança de Kwame Nkrumah, tornando-se referência para os movimentos de libertação nacional que se espalhavam pela África.
A experiência de pertencer a uma geração que acompanhou diretamente a descolonização influenciaria a visão internacional do futuro secretário-geral.
Annan estudou em Gana, nos Estados Unidos e na Suíça. Em 1962, iniciou sua carreira nas Nações Unidas, trabalhando para a Organização Mundial da Saúde, em Genebra.
Ao longo das décadas seguintes, ocupou diferentes funções no sistema da ONU, passando por áreas administrativas, orçamentárias, recursos humanos, operações de paz e assistência humanitária.
Sua ascensão ocorreu em um momento particularmente difícil para a organização.
Nos anos 1990, as Nações Unidas enfrentaram crises que colocaram em questão a capacidade da comunidade internacional de impedir atrocidades em massa. O genocídio de Ruanda, em 1994, e o massacre de Srebrenica, na Bósnia, em 1995, tornaram-se símbolos das limitações da arquitetura internacional construída depois da Segunda Guerra Mundial.
Antes de assumir o comando da ONU, Annan foi responsável pelas operações de manutenção da paz da organização.
Esses acontecimentos permaneceriam como algumas das questões mais dolorosas associadas à sua trajetória.
O primeiro africano negro à frente da ONU
Em janeiro de 1997, Kofi Annan assumiu como o sétimo secretário-geral das Nações Unidas.
Sua eleição teve enorme significado simbólico para a África.
Décadas depois do início da grande onda de independências africanas, um diplomata nascido sob o colonialismo chegava ao posto mais elevado da principal organização multilateral do planeta.
Annan buscou modernizar a ONU e reforçar sua atuação nas áreas de desenvolvimento, combate à pobreza, direitos humanos e prevenção de conflitos.
Em seu primeiro discurso à Assembleia Geral como secretário-geral, em 1997, defendeu uma organização capaz de responder às transformações de um mundo que já não era aquele de 1945, quando as Nações Unidas foram fundadas.
Sua gestão procurou aproximar os debates sobre segurança internacional das questões sociais e econômicas.
A ideia central era que paz, desenvolvimento e direitos humanos não poderiam ser tratados como dimensões completamente separadas.
Combate à pobreza e desenvolvimento
Um dos marcos do período de Annan à frente da ONU foi a adoção, em 2000, da Declaração do Milênio.
Dela surgiram os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, conjunto de metas internacionais voltadas para questões como redução da pobreza extrema e da fome, educação, igualdade de gênero, saúde materna e infantil, combate ao HIV/Aids e sustentabilidade ambiental.
A iniciativa ajudou a consolidar a ideia de que o desenvolvimento deveria ocupar uma posição central na agenda internacional.
Em seu discurso ao receber o Nobel da Paz, em dezembro de 2001, Annan afirmou:
“Hoje, em nenhuma parte do mundo uma comunidade pode dominar seu próprio destino inteiramente por si mesma.”
A frase sintetizava sua concepção sobre a crescente interdependência entre os países.
Para Annan, problemas globais exigiam respostas internacionais e instituições multilaterais capazes de produzir cooperação.
Nobel da Paz e defesa do multilateralismo
Em 2001, o Comitê Nobel Norueguês concedeu conjuntamente o Prêmio Nobel da Paz às Nações Unidas e a Kofi Annan.
A escolha reconheceu os esforços por uma organização internacional mais ativa na busca pela paz e pela cooperação global.
O prêmio veio justamente quando o sistema internacional entrava em uma nova fase de instabilidade após os atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos.
As guerras que se seguiram colocariam o multilateralismo sob enorme pressão.
O caso mais emblemático foi o Iraque.
Em 2003, o governo dos Estados Unidos de George W. Bush, apoiado principalmente pelo Reino Unido de Tony Blair, invadiu o país sem uma nova autorização específica do Conselho de Segurança das Nações Unidas para o uso da força.
A guerra tornou-se um dos episódios mais controversos da política internacional do início do século XXI.
Em entrevista à BBC em 2004, Annan declarou considerar a invasão incompatível com a Carta das Nações Unidas e, nesse sentido, ilegal.
Sua posição evidenciava o conflito entre duas concepções de ordem mundial: de um lado, decisões tomadas unilateralmente pelas grandes potências; de outro, a defesa de regras e instituições multilaterais.
Ruanda e as limitações da comunidade internacional
O legado de Annan também é inseparável das tragédias que expuseram a incapacidade da ONU e das grandes potências de proteger populações ameaçadas.
O genocídio de Ruanda é o caso mais dramático.
Em aproximadamente cem dias de 1994, cerca de 800 mil pessoas, majoritariamente tutsis, foram assassinadas, segundo estimativas amplamente utilizadas pelas Nações Unidas.
Annan era então chefe das operações de paz da ONU.
Anos depois, reconheceu publicamente a responsabilidade institucional pelo fracasso da resposta internacional.
Em 2004, durante cerimônia pelos dez anos do genocídio, afirmou:
“A comunidade internacional fracassou em Ruanda, e isso deve nos deixar sempre com um sentimento de amargo pesar e tristeza permanente.”
O episódio alimentou uma discussão que marcaria profundamente os anos seguintes: até onde deveria ir a soberania dos Estados quando governos fossem incapazes ou não estivessem dispostos a impedir genocídios, crimes de guerra e outras atrocidades contra suas populações?
Esse debate contribuiria para o desenvolvimento do princípio conhecido como “responsabilidade de proteger”, adotado pelos Estados-membros da ONU na Cúpula Mundial de 2005.
Um mundo profundamente desigual
Outra dimensão importante do pensamento de Kofi Annan foi sua preocupação com as desigualdades produzidas pela globalização.
Ele não rejeitava a integração econômica mundial, mas argumentava que seus benefícios precisavam alcançar parcelas muito maiores da humanidade.
Em seu discurso do Nobel, advertiu para a desigualdade entre aqueles integrados às oportunidades da economia global e os bilhões de pessoas que permaneciam em situação de pobreza.
Essa preocupação aproximava desenvolvimento e segurança.
Para Annan, sociedades marcadas pela miséria, exclusão, ausência de instituições e falta de perspectivas eram também mais vulneráveis a conflitos.
Sua visão ajudou a fortalecer dentro das Nações Unidas uma agenda segundo a qual segurança internacional não poderia ser reduzida apenas à dimensão militar.
África no centro da diplomacia internacional
A trajetória de Annan também teve significado particular para o continente africano.
Sua chegada à liderança das Nações Unidas ocorreu em um período no qual países africanos ainda enfrentavam consequências econômicas, sociais e institucionais do colonialismo, além de conflitos e dificuldades decorrentes de uma ordem econômica internacional profundamente desigual.
Depois de deixar a ONU, Annan continuou envolvido diretamente com questões africanas.
Em 2007, criou a Kofi Annan Foundation, voltada para temas como paz, democracia, eleições e cooperação internacional.
Em 2008, desempenhou papel central na mediação da crise política do Quênia, desencadeada após uma eleição presidencial contestada e acompanhada por uma onda de violência.
Sua atuação ajudou a construir um acordo de compartilhamento de poder entre os principais grupos políticos envolvidos no conflito.
Síria e os limites da diplomacia
Annan voltou ao centro da diplomacia mundial em 2012, quando foi nomeado enviado especial conjunto das Nações Unidas e da Liga Árabe para a Síria.
O país mergulhava em uma guerra devastadora.
Ele apresentou um plano de seis pontos que previa cessar-fogo, diálogo político, acesso humanitário e libertação de pessoas detidas arbitrariamente.
A iniciativa fracassou diante da continuidade dos combates, das profundas divisões internas e das disputas entre potências internacionais.
Annan renunciou à missão meses depois.
O episódio expôs novamente um problema que acompanhou toda sua trajetória: organismos multilaterais dependem, em última instância, da disposição dos Estados — especialmente das grandes potências — de cooperar.
Um legado que permanece atual
Kofi Annan deixou o cargo de secretário-geral em dezembro de 2006, depois de dois mandatos.
Ao longo de dez anos, procurou reformar as Nações Unidas, ampliar o peso das questões sociais na agenda global e defender a legitimidade das instituições multilaterais.
Seu período no comando da organização esteve longe de ser livre de controvérsias. Ruanda, Bósnia, Iraque e outras crises demonstraram os limites da ONU diante dos interesses das grandes potências e das divisões do Conselho de Segurança.
Mas foram justamente essas contradições que deram centralidade à questão que acompanhou sua vida pública: como construir mecanismos internacionais capazes de responder a problemas que nenhum Estado consegue solucionar sozinho?
A defesa de Annan de uma ordem baseada na cooperação permanece particularmente relevante em um cenário internacional marcado por guerras, mudanças climáticas, desigualdades, disputas comerciais, avanço tecnológico e crescente competição entre potências.
Pouco antes de sua morte, ele continuava defendendo a necessidade de lideranças políticas comprometidas com instituições democráticas e soluções coletivas.
Em 18 de agosto de 2018, o mundo perdia um diplomata africano que havia passado mais de quatro décadas dentro das Nações Unidas e chegado ao comando da organização.
Seu percurso, iniciado em uma África ainda marcada pelo colonialismo, tornou Kofi Annan um dos grandes representantes de uma ideia que continua no centro das disputas internacionais: a de que, em um mundo interdependente, a paz e o desenvolvimento dependem da capacidade dos povos e dos Estados de construir respostas comuns. Informações do 247



