Neste 22 de agosto completam-se 122 anos do nascimento de Deng Xiaoping, o dirigente que conduziu a grande virada econômica da China no final do século XX e deixou como uma de suas principais heranças intelectuais uma ideia que permanece no centro da visão chinesa sobre as relações internacionais: paz e desenvolvimento são os grandes temas de nosso tempo.

Deng nasceu em 22 de agosto de 1904, na província de Sichuan, e morreu em 19 de fevereiro de 1997, em Pequim. Entre essas duas datas transcorreu uma vida que acompanhou praticamente toda a construção da China contemporânea: a luta revolucionária, a fundação da República Popular em 1949, os conflitos internos do período maoísta, a reconstrução política depois da Revolução Cultural e, finalmente, a política de reforma e abertura que transformaria profundamente a economia chinesa e, por consequência, a própria economia mundial.

Deng não foi apenas o arquiteto de reformas econômicas. Sua contribuição talvez mais profunda tenha sido estabelecer uma relação estratégica entre desenvolvimento nacional, estabilidade internacional, soberania e paz.

Em março de 1985, ao receber uma delegação da Câmara de Comércio e Indústria do Japão, Deng formulou de maneira explícita sua interpretação do sistema internacional: “paz” e “desenvolvimento econômico” eram os dois grandes problemas de importância estratégica global. Em 1987, essa avaliação seria incorporada ao relatório do 13º Congresso Nacional do Partido Comunista da China como uma leitura fundamental da época.

Era uma formulação simples, mas com enormes consequências.

Uma mudança na maneira de enxergar o mundo

Para compreender a importância da tese de Deng, é preciso voltar ao contexto histórico.

Durante boa parte do século XX, a China viveu sob guerras, invasões estrangeiras, ocupação japonesa, guerra civil, isolamento internacional e confrontações ideológicas. Depois da fundação da República Popular, em 1949, o país ainda enfrentou a Guerra da Coreia, tensões com os Estados Unidos e posteriormente uma ruptura com a União Soviética.

A política chinesa foi construída, durante décadas, sob a percepção de que uma nova guerra de grandes proporções poderia ocorrer.

Deng começou a alterar esse diagnóstico.

Ele não afirmava que as guerras desapareceriam nem que as grandes potências deixariam de disputar influência. Sua conclusão era mais sofisticada: embora o perigo de guerra continuasse existindo, as forças capazes de contê-la haviam crescido e uma guerra mundial não deveria ser tratada como inevitável.

Essa mudança de avaliação produziu uma consequência decisiva.

Se uma guerra mundial não era inevitável, a China poderia concentrar seus recursos naquilo que Deng considerava sua tarefa histórica fundamental: o desenvolvimento.

Em vez de organizar toda a economia para uma confrontação militar potencial, seria possível direcionar energia, capital, conhecimento e trabalho para a modernização.

Paz, portanto, não era para Deng apenas uma aspiração moral.

Era uma condição estratégica para o desenvolvimento.

A prioridade passa a ser desenvolver as forças produtivas

A grande transformação começou em 1978.

A China iniciou um processo de reforma e abertura que combinou planejamento estatal, mecanismos de mercado, abertura ao investimento estrangeiro, criação de zonas econômicas especiais, expansão do comércio exterior, modernização agrícola, industrialização e uma política pragmática de experimentação econômica.

Deng sintetizava esse método com uma famosa metáfora: era preciso “atravessar o rio sentindo as pedras”.

Em outras palavras, não se tratava de importar mecanicamente um modelo econômico estrangeiro, mas de experimentar políticas, observar resultados, corrigir erros e ampliar aquilo que funcionasse.

O Banco Mundial destaca justamente esse caráter gradual, experimental e descentralizado das reformas chinesas, em contraste com as políticas de “terapia de choque” posteriormente aplicadas em outras economias socialistas.

Foi também nesse contexto que ganharam força as chamadas Quatro Modernizações: agricultura, indústria, ciência e tecnologia e defesa nacional.

O objetivo era construir as bases materiais para que a China recuperasse uma posição compatível com sua dimensão histórica e populacional.

O desenvolvimento como fundamento da soberania

Há uma dimensão fundamental do pensamento de Deng que às vezes desaparece quando sua obra é interpretada apenas pelo prisma econômico.

Para ele, desenvolvimento significava também soberania.

Uma China pobre, tecnologicamente atrasada e economicamente dependente teria menor capacidade de preservar sua autonomia.

Uma China industrializada, tecnologicamente avançada e integrada ao comércio internacional teria condições muito maiores de decidir seu próprio destino.

Essa relação entre desenvolvimento e soberania ajuda a compreender uma das características mais importantes da trajetória chinesa desde então.

A abertura econômica não significou abandono da capacidade de planejamento do Estado.

A China abriu-se ao capital estrangeiro, ao comércio, à tecnologia e às experiências econômicas internacionais, mas procurou fazer essa abertura dentro de uma estratégia nacional.

Daí a fórmula que se tornaria conhecida como “socialismo com características chinesas”.

O mercado poderia ser utilizado como instrumento de desenvolvimento sem que o Estado renunciasse à orientação estratégica da economia.

O resultado histórico das reformas

Os números ajudam a dimensionar o que aconteceu.

Segundo o Banco Mundial, desde o início das reformas e da abertura em 1978, a economia chinesa cresceu em média mais de 9% ao ano, e quase 800 milhões de pessoas foram retiradas da extrema pobreza.

Poucas transformações econômicas na história moderna podem ser comparadas a essa mudança.

Em 1978, a China ainda era predominantemente rural, pobre e relativamente isolada da economia mundial.

Décadas depois, tornou-se uma potência industrial, tecnológica e comercial.

Um estudo do Banco Mundial sobre o período inicial das reformas calculou que a proporção da população abaixo das linhas de pobreza utilizadas na pesquisa caiu de 53% em 1981 para 8% em 2001.

O processo não foi linear e tampouco ocorreu sem contradições. A desigualdade aumentou em determinados períodos, diferenças regionais se aprofundaram e a rápida industrialização produziu graves custos ambientais.

Mas a escala da transformação é incontornável.

A reforma iniciada sob Deng mudou não apenas a China.

Mudou a distribuição do poder econômico mundial.

Paz para desenvolver, desenvolvimento para preservar a paz

É justamente aqui que aparece a originalidade estratégica da formulação de Deng.

Paz e desenvolvimento não eram conceitos separados.

Formavam um sistema.

Sem paz, não existe ambiente estável para o desenvolvimento. Sem desenvolvimento, as causas econômicas, sociais e políticas dos conflitos permanecem.

A formulação chinesa contemporânea mantém explicitamente essa relação: “a paz é a precondição para o desenvolvimento” e o desenvolvimento oferece bases para uma paz duradoura.

Deng acrescentava ainda outra dimensão particularmente importante para os países do Sul Global.

O problema do desenvolvimento era, em grande medida, um problema das relações Norte-Sul.

Em seu pronunciamento de 1985, ele observou que a maior parte da população mundial vivia nos países em desenvolvimento e argumentou que não seria sustentável imaginar a prosperidade permanente de uma pequena parcela da humanidade apoiada na pobreza da maioria.

Essa percepção antecipava um debate que se tornaria cada vez mais importante nas décadas seguintes.

O desenvolvimento do Sul não precisava representar necessariamente uma perda para o Norte.

Ao contrário.

Países mais ricos no Sul Global significariam novos mercados, maior comércio, mais investimentos e expansão da economia mundial.

Era, portanto, uma concepção que buscava substituir parte da lógica de soma zero das relações internacionais por uma lógica de desenvolvimento compartilhado.

A ascensão chinesa não deveria produzir hegemonia

Deng também estabeleceu outro princípio que continuaria presente no discurso diplomático chinês.

O fortalecimento da China não deveria significar a busca da hegemonia.

Em seus últimos anos de atuação política, reiterou que uma China socialista deveria demonstrar por suas ações oposição ao hegemonismo e à política de poder e que o país não deveria transformar sua ascensão econômica em dominação sobre outras nações.

Tratava-se de responder antecipadamente a uma questão inevitável.

O que aconteceria quando um país com mais de um bilhão de habitantes, dotado de enorme território, capacidade industrial crescente e uma civilização milenar recuperasse poder econômico?

A resposta de Deng era que uma China mais desenvolvida poderia constituir uma força adicional de estabilidade internacional.

No pronunciamento de 1985, ele chegou a argumentar que quanto mais forte se tornasse a China, maiores seriam suas condições de contribuir para a preservação da paz.

Uma estratégia para ganhar tempo histórico

A doutrina de paz e desenvolvimento também pode ser entendida como uma extraordinária estratégia de longo prazo.

A China precisava de décadas de estabilidade.

Precisava construir estradas, portos, universidades, fábricas, ferrovias, usinas e centros de pesquisa.

Precisava formar engenheiros, cientistas e trabalhadores especializados.

Precisava absorver tecnologia.

Precisava acumular capital.

Precisava elevar a produtividade.

Precisava, sobretudo, evitar que conflitos externos desviassem o país de sua prioridade fundamental.

Deng compreendeu que o recurso mais precioso da China era tempo histórico em condições de paz.

E utilizou esse tempo para desenvolver o país.

Do “século de humilhação” à modernização

Existe ainda uma dimensão histórica mais profunda.

A estratégia de Deng precisa ser compreendida à luz da experiência chinesa desde as Guerras do Ópio do século XIX.

Durante aproximadamente um século, a China sofreu invasões, tratados desiguais, ocupações estrangeiras, perda de territórios, guerra civil e devastação.

A geração revolucionária chinesa tinha plena consciência dessa memória.

Para Deng, superar definitivamente aquela condição exigia mais do que independência política.

Exigia capacidade econômica.

Uma nação poderia possuir formalmente uma bandeira, um governo e fronteiras, mas permanecer vulnerável se não dominasse indústria, ciência e tecnologia.

A modernização econômica tornou-se, assim, a continuação da luta pela soberania por outros meios.

Uma ideia que atravessou gerações

Deng deixou os principais cargos de liderança antes de sua morte, mas a estrutura estratégica construída durante seu período continuou influenciando profundamente a China.

A noção de desenvolvimento pacífico permaneceu presente na política externa chinesa nas décadas seguintes.

Um documento oficial chinês sobre desenvolvimento pacífico reafirmaria posteriormente que paz, desenvolvimento e cooperação constituem tendências fundamentais das relações internacionais e argumentaria que a crescente interdependência econômica torna os interesses dos países cada vez mais conectados.

Essa linha pode ser percebida, com adaptações às novas circunstâncias históricas, nas iniciativas internacionais desenvolvidas pela China no século XXI.

A expansão comercial chinesa, a Iniciativa Cinturão e Rota, os investimentos em infraestrutura, o fortalecimento dos BRICS, a atuação chinesa no Sul Global e a defesa de uma ordem internacional multipolar podem ser compreendidos também dentro dessa longa tradição estratégica.

A China procura apresentar sua ascensão não como um projeto de substituição de uma hegemonia por outra, mas como parte de uma reorganização do sistema internacional baseada em desenvolvimento, soberania e multipolaridade.

Deng e o Sul Global

É talvez no Sul Global que a reflexão de Deng permanece particularmente atual.

Grande parte das guerras e instabilidades contemporâneas ocorre em sociedades marcadas por pobreza, desigualdade, fragilidade institucional, disputas por recursos e interferências externas.

A tese de Deng oferece outra perspectiva para a segurança internacional.

Segurança não significa apenas armas.

Significa também infraestrutura.

Energia.

Alimentos.

Educação.

Tecnologia.

Emprego.

Industrialização.

Comércio.

Redução da pobreza.

Soberania.

Quando essas dimensões são ignoradas, a paz torna-se frágil.

Essa visão ajuda também a compreender por que a China insiste tanto no direito ao desenvolvimento dos países do Sul.

Na interpretação formulada por Deng, a pobreza de bilhões de pessoas não constitui apenas um problema moral ou humanitário.

É também um problema estrutural da ordem internacional.

A atualidade de Deng em um mundo novamente perigoso

A reflexão adquire especial significado no mundo de hoje.

As rivalidades entre grandes potências voltaram a crescer. Guerras e conflitos geopolíticos ocupam novamente o centro das relações internacionais. A corrida armamentista se intensifica, enquanto tecnologias, cadeias produtivas, energia e comércio passam a ser utilizados como instrumentos de pressão estratégica.

Nesse ambiente, a pergunta formulada por Deng há mais de quatro décadas retorna com força:

qual deve ser a prioridade da humanidade — organizar o mundo para a confrontação ou criar condições para o desenvolvimento?

A resposta chinesa continua sendo essencialmente a mesma.

Paz e desenvolvimento.

Não porque conflitos tenham desaparecido.

Mas justamente porque continuam existindo.

Em 1992, poucos anos antes de morrer, Deng reconheceria que nenhum dos dois grandes problemas havia sido resolvido. A paz continuava ameaçada e o desenvolvimento permanecia ainda mais urgente.

Mais de três décadas depois, a frase conserva uma surpreendente atualidade.

O legado de um pragmático

Deng Xiaoping tornou-se conhecido mundialmente pelo pragmatismo.

Sua política rejeitava a ideia de que a construção de um país pudesse ser subordinada a fórmulas abstratas desconectadas da realidade.

Experimentar, observar, corrigir e avançar eram elementos centrais de seu método.

Mas por trás desse pragmatismo havia um objetivo muito claro.

Fazer a China se desenvolver.

Desenvolver para superar a pobreza.

Desenvolver para recuperar soberania.

Desenvolver para dominar ciência e tecnologia.

Desenvolver para oferecer melhores condições de vida à população.

E preservar a paz para que esse desenvolvimento pudesse acontecer.

A transformação chinesa das últimas cinco décadas oferece uma medida histórica do alcance dessa estratégia. Desde 1978, o país passou de uma economia de baixa renda e relativamente fechada para uma das maiores economias do planeta, enquanto centenas de milhões de pessoas deixaram a pobreza.

Deng Xiaoping não viveu para ver a China do século XXI.

Não viu os trens de alta velocidade atravessando o país.

Não viu a China tornar-se a maior potência industrial do planeta.

Não viu suas missões espaciais, seus veículos elétricos, seus gigantes tecnológicos, suas redes de infraestrutura ou o peso adquirido pelo país no comércio internacional.

Mas ajudou a estabelecer as condições políticas e estratégicas para que tudo isso acontecesse.

Paz e desenvolvimento como projeto de civilização

No 122º aniversário de seu nascimento, talvez seja essa a dimensão mais importante do legado de Deng Xiaoping.

Ele percebeu que uma grande nação não precisa demonstrar sua força apenas pela capacidade de destruir.

Pode demonstrá-la pela capacidade de construir.

Construir cidades.

Construir infraestrutura.

Construir conhecimento.

Construir tecnologia.

Construir prosperidade.

E construir relações econômicas que tornem a guerra cada vez mais custosa e a cooperação cada vez mais necessária.

Essa é a essência da relação entre paz e desenvolvimento.

Não existe desenvolvimento sustentável sobre os escombros permanentes da guerra.

E dificilmente haverá paz duradoura em um planeta no qual bilhões de pessoas sejam privadas do direito ao desenvolvimento.

Deng Xiaoping compreendeu essa relação quando a China ainda estava muito distante da posição que ocupa hoje.

É precisamente por isso que, 122 anos depois de seu nascimento, sua formulação ultrapassa as fronteiras chinesas.

Num mundo novamente ameaçado pela militarização, pelas guerras e pela rivalidade entre grandes potências, paz e desenvolvimento talvez sejam não apenas os dois grandes temas de nosso tempo, como dizia Deng, mas as duas condições fundamentais para que a humanidade possa construir um futuro comum. Informações do 247