Para um adolescente, a participação na eleição começa antes da escolha de um candidato: é preciso tirar o título. Às vésperas do primeiro turno, o cadastro da Justiça Eleitoral reuniu quase meio milhão de jovens de 16 e 17 anos a menos que na disputa presidencial de 2022. Eram 2,1 milhões na eleição; agora são 1,6 milhão. A queda de 22,8% chama atenção também porque o eleitorado brasileiro, considerado como um todo, continua a crescer.

Há menos adolescentes no país, mas isso explica apenas parte da diferença. Pelas projeções do IBGE , a população de 16 e 17 anos diminuiu 5,6% desde 2022, cerca de um quarto da redução registrada entre os participantes da mesma idade. Em uma comparação aproximada entre as duas bases, o Brasil tinha 34 jovens com título para cada 100 habitantes dessa faixa na eleição passada. Neste ano, tem 28. Para esse cálculo, foram excluídos os participantes registrados no exterior.

O impulso de 2022 não se repete

A comparação com 2022 exige considerar que aquela eleição foi marcada por uma mobilização excepcional em torno do primeiro título. Depois do eleitorado de 16 e 17 anos cair para 1,4 milhão em 2018, campanhas da Justiça Eleitoral, ações nas redes sociais e a Semana do Jovem Eleitor ajudaram a elevar esse contingente para mais de 2,1 milhões quatro anos depois — alta de 51,1%. O próprio TSE atribuiu boa parte da recuperação dessas iniciativas.

Em 2026, o tribunal voltou a procurar esse público, inclusive em parceria com a Unicef, mas o impulso não se repetiu na mesma escala. A queda sugere que parte do salto de 2022 teve caráter extraordinário, associado à forte mobilização desse ciclo, e não apenas ao tamanho da população adolescente.

Número de adolescentes de 16 e 17 anos aptos a votar diminuíram em quase meio milhão este ano em comparação com 2022.

Número de adolescentes de 16 e 17 anos aptos a votar em quase meio milhão este ano em comparação com 2022. Arte Congresso em Foco

Menor para votar

Isso não significa, por si só, desinteresse dos adolescentes pela política. O voto é facultativo nessa faixa e a decisão de tirar o título depende também de campanhas de mobilização, ambiente familiar, escola e percepção sobre a importância da eleição.

Ainda assim, pesquisas recentes apontam menor disposição espontânea para eleitor entre os mais jovens. Em agosto, o Datafolha mostrou que apenas 48% dos participantes de 16 a 24 anos afirmaram que iriam às urnas se o voto não fosse obrigatório, ante 61% entre os participantes de 60 anos ou mais. No conjunto do eleitorado, 56% afirmaram que votariam mesmo sem obrigação.

O dado ajuda a contextualizar a queda no número de adolescentes com título, mas não autoriza a concluir que esse grupo está simplesmente ausente da política. Entre os jovens de 16 e 17 anos que participaram aptos em 2022, 82,9% compareceram no primeiro turno.

Mais idosos, menos adolescentes

O contraste com os mais velhos ajuda a mostrar como mudou o eleitorado com voto facultativo. Desde 2022, o grupo de 70 anos ou mais ganhou 2,4 milhões de participantes e chegou a 17,3 milhões de aptos. São mais de dez participantes nessa faixa para cada jovem de 16 ou 17 anos com título. Em 2010, os mais velhos representavam 6,9% do cadastro eleitoral; hoje, são 10,9%.

A diferença de tamanho não se reproduz na mesma proporção nas urnas. No primeiro turno de 2022, compareceram 82,9% dos candidatos de 16 e 17 anos, diante de 41,1% daqueles com 70 anos ou mais. Como o grupo mais velho era muito maior, levou 6,13 milhões de pessoas à votação, 3,5 vezes os 1,75 milhão de adolescentes que compareceram.

Informações do Congresso em Foco