Desde a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no último domingo (25), uma lista incentivando o boicote a estabelecimentos comerciais de Londrina com base no posicionamento político dos proprietários tem circulado em grupos de WhatsApp, entre outros aplicativos.
Um dos locais citados é o Bar do Tobias, localizado no centro da cidade. Com decoração e atmosfera inspiradas no Rio de Janeiro, o espaço tornou-se um ponto de encontro e acolhimento para a comunidade LGBTQIAPN+, entre outros segmentos marginalizados.
Em entrevista ao Portal Verdade, o proprietário do bar, André Tobias Machado, empresário, produtor cultural e integrante da Ong DOCÊ, que organiza a Parada LGBT na cidade, conta que soube da listagem através do encaminhamento de “prints”, que são capturas de tela que registram informações como remetente, mensagem, data, horário e ambiente no qual o conteúdo foi enviado.
“Recebi diversas mensagens com prints de pessoas que estavam em grupos ligados à direita e alertaram sobre o boicote de estabelecimentos que teriam possivelmente posicionamento político de esquerda”, relata.
Segundo Tobias, como é mais conhecido, entre os estabelecimentos mencionados, alguns são vinculados a empresários declaradamente de direita, o que também reforça a falta de credibilidade das informações. Até o momento, não se sabe quem criou a lista e iniciou o compartilhamento.
“Entre estes nomes comerciais possuem também estabelecimentos de direita, ou seja, nem mesmo quem está formando esta lista se preocupa com a vericidade das informações”, indica.
Tobias chama a atenção para a gravidade da incitação à violência. “O maior problema que vejo é mais uma vez um lado disseminando e incentivando o ódio através de uma perseguição política organizada e justificada novamente pela liberdade expressão”, reitera.
Nas Marchas pela Democracia, promovidas durante o segundo turno das eleições presidenciais em Londrina, Tobias se manifestou publicamente no carro de som, defendo os direitos da população LGBTQIAPN+.
A liberdade política no Brasil é um direito fundamental assegurado pela Constituição Federal de 1988, garantindo que os cidadãos possam manifestar suas ideias, convicções e participar da vida pública do Estado sem censura ou perseguição.
Ainda, para Tobias, a tentativa de boicote prejudica a economia local e não afeta apenas os proprietários, mas também os trabalhadores. Garçons, cozinheiros, atendentes e outros profissionais também podem sofrer as consequências, já que dependem dos empregos para sustentar suas famílias.
Atualmente, o Bar do Tobias emprega diretamente quatro trabalhadores, além de dez funcionários indiretos.
“Isso faz com que os empresários sejam afetados negativamente e o impacto disso é a falta de investimentos futuros, de acreditar no desenvolvimento da cidade e da falta de perspectiva por conta de uma simples lista que nem mesmo eles têm a certeza de quais estabelecimentos realmente tomam partido”, adverte.
Para o comerciante, o cenário é mais preocupante, considerando que os recursos de fomento à cultura têm sido escassos. Ele lembra que, em abril, a Câmara Municipal de Londrina rejeitou o pedido de urgência para a votação do Plano Municipal de Cultura (2026-2036).
O plano previa elevar os recursos da Secretaria de Cultura dos atuais cerca de R$ 17,6 milhões para uma projeção de R$ 33 milhões ao longo de dez anos. Com a negativa e a perda do prazo, o município de Londrina perdeu a chance de se inscrever em um programa estadual de fomento à cultura que exigia a aprovação da lei em tempo hábil.
“Não pensam nas consequências que estes estabelecimentos geram empregos, movimentam a cultura e o lazer”, complementa.
Ainda, ele compartilha que desde seu surgimento, o Bar do Tobias tem se posicionado abertamente em prol da diversidade e igualdade racial, de gênero e sexual. “A maioria dos frequentadores compactua e se sente acolhidos e seguros”, sugere.
Porém, desde a criação da lista, tanto Tobias como funcionários e o público têm sido alvo de perseguição política. “Através dos nossos números pessoais, tanto os colaboradores quanto amigos e isso atrapalha diretamente o nosso trabalho, estamos deixando de fazer reservas e respondendo clientes que gostariam de frequentar o bar”, pontua.
Tobias acredita que o racismo e a LGBTfobia também cooperam para as tentativas de constrangimento que já se manifestaram outras vezes de diferentes formas.
“Ameaças constantes, tentativas de banimento nos aplicativos que utilizamos para organizar o bar e fazer reservas, já quebraram nosso lixo na frente do bar, frequentemente tentam me constranger falando sobre meu posicionamento”, exemplifica.
“Desde quando abrimos sofremos com rótulos impostos ao bar, já ouvimos até que as pessoas não tinham que frequentar o bar porque só dava viado, sapatão e gente preta”, acrescenta.
Apesar da sensação de insegurança afetar o cotidiano do estabelecimento, Tobias salienta que não irá recuar. “Me dá ainda mais vontade de mostrar que a minoria faz a diferença e vai continuar lutando contra esses tipos de atitudes”, sinaliza.
Nesta segunda-feira (26), Tobias encaminhou ao Ministério Público do Paraná um pedido de investigação a fim de identificar quem são os autores da lista. De acordo com ele, a solicitação também visa coibir novas tentativas de intimidação.
“Entramos para nos resguardar de uma possível retaliação e utilização da máquina pública a favor de fiscalizações indevidas e possíveis interferência no funcionamento dos estabelecimentos listados”, afirma.
A reportagem optou por não reproduzir a lista na íntegra para não gerar desinformação e não compactuar com a reprodução de casos de violência política, ameaças e intimidações eleitorais.
Abrasel repudia perseguição política
Em nota, a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) – Regional Norte do Paraná repudiou a circulação de listas que incentivam o boicote a estabelecimentos comerciais de Londrina com base em posicionamentos políticos dos proprietários.
A entidade reforçou que o setor gastronômico reúne pessoas com diferentes opiniões e desempenha papel importante na geração de empregos, renda e convivência social em Londrina.
A associação defende que empresários e trabalhadores possam exercer suas atividades com respeito, sem perseguições motivadas por posicionamentos políticos.
Diante do cenário, a entidade orientou proprietários e empresários do setor a terem cautela com exposições políticas nas redes sociais durante o período de instabilidade.
A recomendação, segundo o comunicado, busca proteger os negócios, os funcionários e os clientes, além de evitar que divergências políticas provoquem prejuízos à atividade comercial.
Vereadora defende demissão de trabalhadores que votaram em Lula
Conforme informado pelo Portal Verdade, em postagem no X (antigo Twitter), a vereadora de Londrina e deputada estadual eleita para a próxima legislatura, Jessica Ramos Moreno (PL), conhecida como Jessicão, defendeu que empregadores demitam funcionários que votaram no presidente Lula.
Diante das declarações, o deputado estadual Requião Filho (PDT) encaminhou nesta segunda um ofício ao Ministério Público do Trabalho e à Procuradoria Regional Eleitoral no Paraná, vinculada ao MPF (Ministério Público Federal), solicitando a análise de possíveis práticas de assédio eleitoral.
O Coletivo de Sindicatos emitiu nota repudiando as falas da parlamentar (confira aqui).
Uma petição coletiva também foi criada solicitando a cassação do mandato da vereadora e futura deputada. Até o momento, o abaixo-assinado reúne quase 80 mil assinaturas.
Denúncias quase triplicam no Paraná desde o primeiro turno
O número de denúncias de assédio eleitoral no ambiente de trabalho quase triplicou no Paraná entre o primeiro turno das eleições, em 4 de outubro, e a tarde desta terça-feira (27). Segundo o MPT-PR (Ministério Público do Trabalho no Paraná), o estado tinha recebido 75 denúncias até a noite do primeiro turno. Até as 14h desta terça-feira, o total chegou a 198.
De acordo com o órgão, as denúncias incluem ameaças de demissão relacionadas ao posicionamento político dos trabalhadores, além de outras formas de intimidação e coação praticadas por empresários e cidadãos. Os relatos indicam que os casos não se limitaram ao período de campanha e continuam sendo registrados após a divulgação dos resultados eleitorais.
Como denunciar
Trabalhadores que sofreram ou presenciaram ameaças, intimidações, constrangimentos ou outras formas de pressão relacionadas ao voto ou à preferência política podem denunciar os casos ao MPT-PR, inclusive quando as situações ocorreram após o resultado das eleições.
As denúncias podem envolver ameaças de demissão, recusa de contratação e outras medidas motivadas pela escolha política do trabalhador. As condutas também podem ocorrer em ambientes digitais, por meio de mensagens, publicações em redes sociais e outros canais de comunicação.
O registro pode ser feito de forma sigilosa pelo site do MPT-PR, disponível 24 horas por dia: www.prt9.mpt.mp.br.
Também é possível apresentar a denúncia presencialmente em uma das sete unidades do órgão no Paraná. Os endereços estão disponíveis no site.



