Se ganhar a eleição presidencial no domingo, Lula deveria fazer um agradecimento especial ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que vem atuando como um verdadeiro “infiltrado” dentro da campanha bolsonarista. Desta vez, ele disse que o governo Bolsonaro “rouba menos” que o dos petistas. A gafe já está sendo explorada pela oposição, que apontam que o próprio czar da economia assume que o governo é composto de ladrões.
O lapso ocorreu durante uma entrevista ao G1 sobre a promessa de isentar parte da classe média do imposto de renda. “Eu, se fosse o Bolsonaro, diria: tudo o que o Lula fizer, eu faço mais. Por quê? Porque nós roubamos menos”, afirmou. Logo em seguida, percebendo o sincericídio, corrigiu-se: “Nós não roubamos”. Tarde demais.
A gafe é especialmente dolorida porque Bolsonaro vem martelando durante a campanha que Lula é um bandido. A três dias das eleições, Guedes deu à campanha do adversário uma possibilidade de ouro.
Isso depois que um estudo do Ministério da Economia, revelado pela Folha de S.Paulo, mostrou que o governo estuda mudar a fórmula de reajuste anual do salário mínimo, o que pode prejudicar 72 milhões de pessoas que recebem salários, aposentadorias, seguro-desemprego e benefícios sociais, de acordo com cálculo de Eduardo Fagnani, professor de economia da Unicamp.
Após essa informação ser explorada pelos petistas, a intenção de voto de Lula foi de 57% para 61% e a de Bolsonaro passou de 37% para 33% entre quem recebe até dois salários mínimos, segundo o Datafolha divulgado nesta quinta.
O ato falho é algo fascinante. Quando uma pessoa está mentindo por muito tempo, mais cedo ou mais tarde, é traída pelo inconsciente. Até porque manter as aparências publicamente exige muita energia e a verdade é algo que esmaga por dentro, forçando confissões.
Como me explicou uma vez o grande Christian Dunker, professor titular do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e colunista do UOL, “a verdade, expulsa pela porta da frente, hoje, reaparecerá pela janela dos fundos, amanhã”.
Esse tipo de gafe é mais proeminentes em situações nas quais a pessoa parece ter conhecimento dos assuntos tratados, como é Guedes quanto à questão das contas públicas.
“Atos falhos, ou parapraxias, envolvem duas condições: a emergência de uma palavra ou expressão no discurso, seguida de uma correção ou negação do ocorrido. Para a psicanálise, isso acontece porque há uma cadeia de pensamentos, inconsciente, que se encontra suprimida e emerge revelando um fragmento da verdade queremos suprimir a nós mesmos”, me explicou Dunker.
Supressão que, mais cedo ou mais tarde, se rompe e aflora e pode dizer muito sobre autoridades. Mas o que fazemos com as verdades confessadas pelas autoridades diz muito sobre a psique de um povo. Informações do Pragmatismo Político



