No último sábado (17), a Secretaria Municipal de Assistência Social realizou o primeiro mutirão de 2026 para inclusão e atualização do CadÚnico (Cadastro Único). Ao todo, foram atendidos 150 beneficiários, porém, a estimativa é de que mais de 6 mil famílias estejam com o cadastro desatualizado na cidade, segundo levantamento do Coletivo em Defesa da Assistência Social.
O grupo alerta que o número pode ser ainda maior, já que os trabalhadores da assistência social têm relatado dificuldades para obter mais informações sobre a política.
“A falta de transparência quanto ao tamanho da fila e à capacidade de atendimento dificulta o controle social e impede a avaliação precisa do impacto dessa demanda reprimida sobre o acesso das famílias aos benefícios e programas vinculados ao CadÚnico”, compartilha uma integrante do Coletivo que solicitou anonimato.
Conforme informado pelo Portal Verdade, na terça-feira (20), a Prefeitura de Londrina comunicou a exclusão de 500 famílias do PMTR (Programa Municipal de Transferência de Renda) a cinco dias do recebimento. O Executivo alegou inconsistências no CadÚnico, porém é de responsabilidade da própria Prefeitura realizar a atualização dos dados.
Além de ser um dos critérios para a concessão do PMTR, o CadÚnico é a “porta de entrada” para diversos programas sociais oferecidos tanto pelo governo estadual como pela União.
Ter o cadastro atualizado é um dos pré-requisitos para receber o Programa Bolsa Família, Auxílio Gás, BPC (Benefício de Prestação Continuada), Programa Pé-de-Meia, solicitar tarifa social de energia elétrica, água, isenção em concursos públicos, participar de programas habitacionais como o Minha Casa Minha Vida, entre outros benefícios.
Segundo uma trabalhadora da pasta, que também prefere não se identificar, a falta de atualização cadastral não tem levado apenas a suspensão do PMTR, mas também de outros programas na cidade.
“Diversos beneficiários, especialmente, idosos e pessoas com deficiência que recebem o Benefício de Prestação Continuada têm enfrentado bloqueios ou cessação do benefício por falta de atualização cadastral”, diz.
“Em muitos casos, o BPC [Benefício de Prestação Continuada] representa a única fonte de renda familiar, o que torna a interrupção abrupta do benefício uma situação crítica de vulnerabilidade social. A ausência de renda compromete a subsistência básica dessas famílias, ampliando o risco de insegurança alimentar e exclusão social”, avalia.

“Falta de transparência”
Durante o segundo semestre de 2025, a Secretaria Municipal de Assistência Social manteve um convênio com a EPESMEL (Escola Profissional e Social do Menor de Londrina) para a prestação do serviço, mas a parceria não foi renovada.
A expectativa é que uma OSC (Organização da Sociedade Civil) assuma o serviço neste ano, mas até o momento, o nome da entidade que ficará responsável pelo CadÚnico não foi informado pela Prefeitura.
“Falta transparência institucional, não há divulgação clara sobre como está sendo conduzida a parceria para execução da oferta de serviços relacionados ao CadÚnico”, alerta a servidora.
Apesar da informação não ter sido oficializada pelo Executivo, a CEPAS, entidade que possui convênio com a Secretaria Municipal de Assistência Social desde os anos 2000, atuando no serviço de convivência e fortalecimento de vínculos, iniciou processo seletivo para a contratação de novos entrevistadores do CadÚnico.
As vagas ofertadas são de 40 horas semanais, sendo jornadas de segunda à sexta-feira, no horário das 8h às 17h e com salário de R$ 2.365. Também são oferecidos vale-refeição no valor de R$ 380, vale-transporte (valor não informado) e prêmio por atendimento, que corresponde a R$ 2 por cadastro concluído e validado. A admissão é anunciada na modalidade CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), com prazo determinado até 30 de junho de 2026.
“Durante o mutirão, inclusive, novos cadastradores estavam em processo de treinamento, o que evidencia esforços emergenciais para reduzir a fila, mas também revela instabilidade administrativa e ausência de planejamento consolidado”, indica.
A trabalhadora salienta que o Conselho Municipal de Assistência Social, em recesso, não deliberou sobre a transferência do serviço para organização.
“Essa ausência de anuência configura uma irregularidade administrativa, pois compromete o controle social e a legalidade das ações”, salienta.
Para as trabalhadoras, embora os mutirões sejam importantes, tratam-se de ações pontuais, que não solucionam o desmonte da política no município. Além disso, elas destacam que o aumento da jornada, através dos plantões, sem novas contratações via concurso público, aumenta a sobrecarga e desgaste dos profissionais.
“A gestão tem solicitado apoio de servidores efetivos, especialmente, profissionais de nível superior, para a realização de horas extras em mutirões. Essa prática evidencia improvisação e falta de planejamento estrutural”, pontua.
“O mutirão é uma medida emergencial, não resolutiva, diante da demanda reprimida existente. É necessário dotar a política de assistência social de quadro próprio para ampliar a capacidade de atendimento e garantir maior previsibilidade para os beneficiários. E fundamentalmente o acesso a benefícios sociais tão necessários à sobrevivência e vida digna”, acrescenta.
Precarização e instabilidade
As equipes reduzidas face à demanda crescente têm levado a intensificação das condições de trabalho dos entrevistadores, segundo as trabalhadoras. O acréscimo por produtividade e a instabilidade do vínculo são alguns exemplos do sucateamento.
“As condições de trabalho dos profissionais do CadÚnico refletem um cenário de precarização e improviso, marcado pela falta de transparência, sobrecarga e ausência de planejamento de pessoal”, assinala.
Um dos principais reflexos, de acordo com elas, é a qualidade do serviço prestado à população mais vulnerável. “Essa situação compromete a qualidade do atendimento, aumenta o risco de falhas operacionais e impacta diretamente a população em situação de vulnerabilidade”, pondera.
Em Londrina, todos as entrevistas para o Cadastro Único são feitas presencialmente e com agendamento prévio, nas unidades do Centro de Referência de Assistência Social – CRAS. O agendamento está disponível por telefone, pessoalmente e também pela internet, no Portal da Prefeitura.
Atualmente, o município possui um total de 71.669 famílias inscritas no Cadastro Único. A atualização é obrigatória a cada dois anos, mas deve ser feita antes no caso de alterações nas informações familiares, como renda, mudança de endereço, aumento ou diminuição no número de membros da família, e demais variações. Informações do portal Verdade



