Neste domingo, 25, acontece a 2ª Marcha Trans, no Calçadão, centro de Londrina, com concentração a partir das 16h. A mobilização acontece no Mês da Visibilidade Transsexual, com a proposta de fortalecer a comunidade transgênera londrinense, reconhecer suas vivências e reivindicar o espaço urbano, denunciando a transfobia na cidade e exigindo políticas públicas.
Segundo Juuara Armond e Oliver Fernandes, integrantes da Frente Trans de Londrina, coletivo que organiza a Marcha, o tema “Bem Viver” vem como um grito de guerra para exigir dignidade e acesso a direitos, que mesmo básicos não são garantidos pelo Estado às pessoas trans.
“Escolhemos o tema para denunciar a transfobia estrutural e institucional da nossa sociedade e para que consigamos ter acesso pleno à saúde, à educação, à moradia, ao emprego e à renda”, destaca Juuara.

Programação
A programação tem início às 16h, com a concentração dos participantes, em frente ao chafariz do Calçadão. Nesse primeiro momento, estão previstas falas de lideranças vinculadas aos coletivos organizadores da Marcha.
Por volta das 17h30, a Marcha tem início, seguindo pela Avenida Paraná. De acordo com a organização, todo o percurso será realizado com atenção redobrada à segurança, já que, apesar de ser um dia com menor movimentação, o trajeto passa por vias com circulação de automóveis.
O percurso está previsto para se encerrar na Concha Acústica. No local, a programação continua com apresentações culturais, incluindo sets de DJ, performances de dança com a Ballroom Londrina e integrantes do coletivo Front 043, além de apresentações de poesia e slams, com participação aberta ao público. O objetivo, de acordo com Oliver, é celebrar a arte e as vivências trans: “A cultura é política e muitas pessoas trans vivem de cultura no Brasil”, assinala.
Juuara pontua a importância do ballroom na Marcha, por ser uma cultura criada nas décadas de 1970 e 1980 por mulheres travestis e transexuais negras e por pessoas LGBTQIAPN+ latinas, na América do Norte, de onde se espalhou pelo mundo.
“Mais do que uma manifestação estética, o movimento se consolidou como espaço de acolhimento e resistência, especialmente, para pessoas LGBTQIAPN+ e trans que viviam com HIV/AIDS em um contexto de abandono do Estado”, relembra.
O encerramento das atividades na Concha Acústica está previsto entre 19h30 e 20h, e o after acontece no NYC Burguers, hamburgueria parceira do evento, na Rua Paranaguá 921.
Reivindicações
No dia 26 de janeiro, a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) lançará seu Dossiê 2026, que compila dados sobre a população travesti e transsexual no Brasil em 2025. Dados preliminares sinalizam que o Brasil segue sendo o líder mundial de violência contra pessoas trans por 17 anos consecutivos.
Oliver explica que a Marcha vem, justamente, para evidenciar a existência e resistência da população transexual, “mostrando que somos pessoas competentes que buscam e lutam por possibilidades, para que toda pessoa trans viva com dignidade”, comenta.
“As mulheres travestis e transexuais são mortas com requintes de crueldade e os homens trans, os transmasculinos, são suicidados por responsabilidade da sociedade transfóbica”, denúncia Juuara.
Além de reivindicar o direito de estar vivo, a Marcha exige uma vida com qualidade: “A existência é importante, mas não é mais suficiente, é necessário termos dignidade e direitos para estarmos vivos”, aponta Oliver.
De acordo com um estudo do Instituto de Pesquisa de Economia Aplicada (Ipea), realizado em outubro de 2025, apenas 25% das pessoas trans mapeadas no relatório estavam empregadas em 2023. Além disso, as pessoas trans com salário formal recebem, em média, R$ 2.707 por mês, valor 32% inferior à média nacional (R$ 3.987).
“Nós não estamos cobrando nada a mais do que o restante da sociedade, muito pelo contrário, a gente quer acessar o que é nosso por direito. Queremos ter acesso à cidadania, à saúde, à educação, à emprego e renda, como as pessoas que não são travestis e transexuais”, destaca Juuara.
Outra reivindicação é a viabilidade de cotas trans na Universidade Estadual de Londrina, que vem sendo discutido desde o ano passado e marcou a Jornada da Visibilidade Trans 2025. “Então, a gente ainda não tem as pessoas trans conseguindo alcançar esse status de ter uma profissão e um diploma. São por essas coisas que a nossa reivindicação se baseia na dignidade de viver”, explica Oliver.
Para além da Universidade, “é muito importante garantir a existência transexual com qualidade dentro do ensino básico e do ensino médio”, complementa.
Ainda, Oliver conta que existem avanços em Londrina, como o ambulatório multiprofissional para cuidado integral da saúde de pessoas trans e travestis, implementado em 2021 pela Secretaria Municipal de Saúde.
“Por mais que não seja um atendimento da maneira como deveria ser feito, com inúmeros profissionais de várias áreas, ainda existe esse acolhimento”, sinaliza. “Além disso, a gente também conseguiu conquistar a Casa Trans, onde acontece o acolhimento de pessoas trans em situação de vulnerabilidade”, observa.
Com o corte da Assistência Social, a Casa perdeu uma vaga destinada ao apoio da população trans.
Como apoiar
Para Juuara, “as pessoas podem contribuir marchando junto com a gente e contribuindo na segurança da nossa Marcha”, assinala.
Os organizadores também pedem doações financeiras, de alimentos e de roupas para pessoas transgêneras que a Frente Trans atende e para a Casa Trans. “A gente está tentando buscar essa garantia na dignidade de vida, então, para além delas (pessoas que moram na Casa Trans) terem uma casa, é ter acesso a um alimento de qualidade, com uma dieta balanceada e uma vestimenta de qualidade. Porque o ato de você se arrumar, de cuidar do cabelo e do corpo, é um ato político”, diz Oliver.
“A Frente Trans tem muita potência, com a possibilidade de construir trabalhos lindos pensando na cultura e na arte, mas a gente ainda está fadado em conseguir comida e acesso à saúde para o nosso povo. Isso é tão básico, chega a me dar tristeza e raiva”, declara Juuara.
As doações de alimentos e roupas podem ser destinadas ao NYC Burguers, Rua Paranaguá 921, ao Bar do Tobias, Rua Montese, nº 316, à Rua França, 90, Jardim Adriana e à Av. Duque de Caxias, 1338.
As doações financeiras são vinculadas ao PIX de Juuara Santos, pela chave juuaraabs@gmail.com e de Oliver Fernandes, pela chave 45fb1fb3-1612-4afd-9124-473708081d5d.
Janeiro: Mês da Visibilidade Transexual
Há mais de 20 anos, janeiro é o mês da visibilidade da população transexual e travesti, sendo o dia 29 o Dia Nacional da Visibilidade Trans.
A data foi escolhida em referência ao primeiro ato nacional organizado pela população trans e travesti, realizado em 2004, quando manifestantes lançaram, no Congresso Nacional, em Brasília, a campanha “Travesti e Respeito: já está na hora dos dois serem vistos juntos”.
A campanha tinha como foco a promoção da dignidade e dos direitos da população trans e travesti, incluindo ações de enfrentamento às doenças sexualmente transmissíveis. A iniciativa passou a simbolizar a luta contra a transfobia e pela garantia de direitos civis. O ato é considerado um marco histórico por reivindicar cidadania à população transsexual e travesti no Brasil, consolidando a data como um símbolo de visibilidade.
Oliver acredita que a organização de pessoas transexuais é vital para a conquista de direitos e possibilidades. “Crie grupos de afeto, grupos de apoio entre si, no seu bairro, na sua escola, na sua universidade. Onde você conseguir criar essa experiência coletiva é muito importante, pois isso fortalece quem nós somos, a sociedade e a comunidade no contexto geral”. Ele também ressalta a significância de se organizar politicamente: “Participar dos coletivos, de reuniões, procurando saber os direitos e necessidades da sua população, questionando, indagando, é importantíssimo”.
Coletivos apoiadores da Marcha:
FONATRANS – Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros.
Portal Verdade
ONG D.O.C.Ê
Práxis Itinerante – Programa de Extensão UEL
Grupo de Pesquisa e Extensão: Entretons e DECO (Decolonialidade na Comunicação)
Projeto Entretons: Disruptivas Discursivas Decoloniais de Comunicação de Vidas que Importam – UEL
Conselho Municipal das Mulheres
Conselho Municipal de Direitos Humanos
Conselho Municipal de Promoção de Igualdade Racial
NYC Burguers
Bar do Tobias
Serviço
Marcha Trans pelo Bem Viver
Dia: Domingo, 25 de janeiro
Horário: Concentração a partir das 16h
Local: Calçadão, centro de Londrina, em frente ao chafariz
Programação: Marcha pela Avenida Paraná e encerramento na Concha Acústica, com apresentações de DJs, performances de dança com Ballroom Londrina e coletivo Front 043 e poesia e slams aberto ao público
After: NYC Burguers
Doações:
Alimentos e roupas:
- NYC Burguers, Rua Paranaguá, 921
- Bar do Tobias, Rua Montese, nº 316
- Rua França, 90 – Jardim Adriana
- Av. Duque de Caxias, 1338
Doações financeiras (PIX):
juuaraabs@gmail.com (Juuara Santos)
45fb1fb3-1612-4afd-9124-473708081d5d (Oliver Fernandes)



