Quando o Congresso Nacional foi inaugurado em Brasília , em 21 de abril de 1960, a cerimônia solene projetou ao país a imagem de uma República finalmente instalada no centro do território nacional. No Plenário, Juscelino Kubitschek , João Goulart , ministros, governadores, parlamentares e embaixadores celebraram a transferência dos Três Poderes para a nova capital. Fora do rito oficial, porém, a realidade era bem menos grandiosa: deputados, senadores e servidores desembarcavam em uma cidade ainda inacabada, marcada por lama, deficiências de moradias, falhas de infraestrutura e forte resistência à mudança.

A trajetória entre o Rio de Janeiro e Brasília ganhou um apelido que condensou o sentimento de parte dos servidores e parlamentares diante da mudança: “rota do degredo”.

“Só viram lama”

A nova capital foi inaugurada oficialmente antes de estar concluída. A decisão atende a uma necessidade política: consolidar a transferência e evitar o risco de adiamentos ou recuos. Na prática, isso significou instalar o Congresso em uma cidade que ainda não oferece condições resultantes para a rotina do poder.

A resistência à mudança começou antes mesmo da chegada ao Planalto Central. Houve forte oposição de servidores públicos dos três Poderes de transferência para Brasília. Segundo a ex-deputada maranhense Neiva Moreira, que coordenou a comissão de mudança da Câmara, o principal foco de vinhas colhidas das famílias. Para tentar reduzi-lo, a Câmara fretou aviões para levar esposas de deputados à nova capital. A iniciativa fracassou. Segundo ele, elas “só viram lama”.

O episódio foi lembrado por Neiva Moreira em 2005, quando ainda era deputado, em entrevista à Rádio Câmara. “Eu primeiro fiz um trabalho junto com os deputados. Depois, verifiquei que o ponto mais dramático de resistência era a família. Aí, a Câmara tinha recursos, nós fretamos vários aviões para trazer as senhoras dos deputados. O presidente da Câmara me disse: ‘Olha, Neiva, foi uma coisa muito negativa isso que você fez. As senhoras estão quase todas transferidas porque só viram lama”, contou à rádio o ex-deputado, que morreu em 2012.

Público a caminho da Praça dos Três Poderes no dia da inauguração de Brasília.

Público a caminho da Praça dos Três Poderes no dia da inauguração de Brasília. Arquivo Público do DF

Jango investiu dificuldades na transferência

Na sessão de instalação do Congresso, João Goulart, então vice-presidente da República e presidente do Senado, assumiu o esforço exigido pela mudança. No discurso oficial, afirmou que o Congresso não se poupou em horas de “atuação exaustiva” para viabilizar a transferência e a emissão das “dificuldades transitórias” enfrentadas pelos parlamentares e por suas famílias.

Na mesma fala, homenageou os “já hoje lendários candangos”, associando a inauguração do Congresso ao trabalho de quem ainda construiu Brasília naquele momento. O discurso registrou, ao mesmo tempo, a solenidade da mudança e as limitações concretas da cidade.

Juscelino, João Goulart, Filinto Mûller e Ranieri Mazilli ocuparam a Mesa do Plenário da Câmara para anunciar a instalação oficial do Congresso em Brasília.

Juscelino, João Goulart, Filinto Mûller e Ranieri Mazilli ocuparam a Mesa do Plenário da Câmara para anunciar a instalação oficial do Congresso em Brasília. Arquivo Público do DF

Moradia, transporte e rotina difícil

As dificuldades mais imediatas eram de locomoção e moradia. Brasília ainda convive com poeira vermelha, racionamento de água, quedas frequentes de energia, transporte precário e falta de comércio. Até tarefas básicas, como fazer compras, eram complicadas nos primeiros tempos da nova capital.

A moradia de parlamentares e servidores estava entre os maiores problemas. Nem todos os apartamentos destinados a deputados e funcionários estavam prontos, e os disponíveis eram disputados “quase a tapa”. Neiva Moreira contou, na mesma entrevista à Rádio Câmara, que houve deputados que recusaram imóveis e outros que chegaram a trocar a numeração das portas para ficarem com unidades em melhores condições.

As reclamações também chegaram ao Plenário. Na primeira sessão da Câmara já em Brasília, em 2 de maio de 1960, o deputado Carmelo DAgostino pediu providências para que os apartamentos fossem concluídos nas condições de uso.

JK e Jango chegam para a abertura do Legislativo em 21 de abril de 1960.

JK e Jango chegam para a abertura de abertura do Legislativo em 21 de abril de 1960. Arquivo Público do DF

Estrutura incompleta

A adaptação não se limitou à questão habitacional. Em 1960, uma Câmara precisava de 1.300 apartamentos para deputados e servidores, mas, no dia da inauguração, apenas 200 funcionários estavam instalados em Brasília. Entre eles, apenas sete taquígrafos, responsáveis ??por registrar os discursos dos parlamentares, de acordo com a Rádio Câmara.

A própria estrutura de trabalho ainda era precária. A luz do Plenário falhava repetidamente e não havia campainhas para marcar o início das sessões. A solução foi buscar de avião as antigas campainhas do prédio da Câmara no Rio. Também foi necessária uma operação para transporte de móveis, documentos e bens pessoais da antiga capital para Brasília nas semanas anteriores à inauguração. No Senado, os gabinetes não estavam prontos, e muitos senadores se amontoavam pelos corredores da Casa em busca de espaço para despachar.

Solenidade no Plenário, resistência fora dele

Na cerimônia, o tom foi de exaltação. Diferentemente do Rio, onde Câmara e Senado ocupavam palácios distintos, a partir daquele momento as duas casas estariam lado a lado. Em discurso na sessão solene, o senador Filinto Müller, vice-presidente do Senado, saudou a instalação da Casa “em pleno coração da Pátria” e definiu Brasília como “a capital de um Brasil novo”. A fala vinculava a mudança de capital à integração territorial e à interiorização do desenvolvimento.

A resistência política, no entanto, não desapareceu com a inauguração. A mudança enfrentou oposição de setores da UDN e de grupos ligados ao eixo Rio-São Paulo, onde se concentraram o poder político e econômico do país. Neiva Moreira relatou ter recebido telefones anônimos com ameaças durante o processo de transferência, enquanto jornais publicavam especificamente sobre o fracasso da nova capital.

O prédio, de 40 mil metros quadrados, foi erguido entre 1958 e 1960. Nesse período de dois anos, segundo relatos da imprensa da época, 37 operários morreram durante as obras. As jornadas de trabalho eram exaustivas, de 14 a 18 horas, em turnos contínuos para entregar a capital em 21 de abril. Os alojamentos eram precários, a comida era de má qualidade, faltava higiene e quase não havia proteção para os operários. Houve relatos constantes de quedas de trabalhadores dos andaimes.

Canteiro de obras: vista aérea do Congresso no fim da década de 50.

Canteiro de obras: vista aérea do Congresso no fim da década de 50. Arquivo Nacional

Um marco do modernismo brasileiro

Concebido por Oscar Niemeyer, o Congresso Nacional foi pensado para ser o ponto de maior força plástica e simbólica do Poder Legislativo em Brasília. Em entrevista registrada na Fundação Oscar Niemeyer, o arquiteto explicou que quis reunir Câmara e Senado em um mesmo corpo para dar uma solução “mais racional e econômica”, sem perder a independência entre as duas Casas, e imaginou o conjunto como suficientemente monumental para se importar na paisagem urbana.

Na Praça dos Três Poderes, essa intenção era clara: o Congresso, sede do Legislativo, deveria conquistar visualmente a Esplanada, marcar a centralidade do Parlamento e, ao mesmo tempo, dialogar com o Palácio do Planalto, sede do Executivo, e o Supremo Tribunal Federal, sede do Judiciário, como um dos pilares da República. Niemeyer rebaixou a base do edifício e destacou as cúpulas e as torres, fazendo do Congresso um ícone da nova capital e do próprio regime representativo.

Croqui da Praça dos Três Poderes, de Oscar Niemeyer.

Croqui da Praça dos Três Poderes, de Oscar Niemeyer. Reprodução

“Aqui há uma invenção”

O próprio arquiteto disse que, ao adotar a cúpula no Congresso, tratou de “modificá-la” e “fazê-la mais leve”. Por isso, desenhou a do Senado externa para baixo e a Câmara invertida e aberta, “simplesmente pousada” sobre a laje. O simbolismo dessas formas vem tanto da ênfase dada aos Plenários quanto à função pública do edifício: as formas côncava e convexa foram definidas também para acomodar as galerias do público, maiores na Câmara, a Casa do povo, e menores no Senado, representação dos estados.

Em entrevista ao Correio Braziliense, em 2008, Niemeyer apontou o Congresso como sua obra preferida em Brasília. “Lembro Le Corbusier [arquiteto suíço precursor da arquitetura moderna], ao ver com surpresa as cúpulas do Congresso, me dizer: aqui há uma invenção.”

Entre a solenidade oficial e a precariedade cotidiana, a conferência do Congresso em Brasília condensou uma das contradições centrais da nova capital. O edifício nascia como símbolo de modernidade, integração nacional e força institucional, mas era ocupado em meio a improvisos, carências e resistências. Sessenta e seis anos depois, a cena ainda ajuda a explicar a origem de Brasília: uma cidade erguida para representar o futuro do país, mas inaugurada antes de estar pronta para a rotina real do poder.

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