No último sábado (11), o Auditório da ACIL (Associação Comercial e Industrial de Londrina), foi palco do workshop “Saúde mental e a nova NR-1: desafios e práticas no ambiente de trabalho” promovido pelo Senalba Londrina (Sindicato dos Empregados em Entidades Culturais, Recreativas, de Assistência Social, de Orientação e Formação Profissional).

O evento reuniu lideranças sindicais, gestores, profissionais de recursos humanos, trabalhadores, integrantes de movimentos sociais, entre outros segmentos. Foram quatro horas de debate sobre as atualizações da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1).

A legislação, criada em 1978 pelo Ministério do Trabalho, estabelece diretrizes para a promoção da saúde e segurança no trabalho. Em 2025, a NR-1 foi atualizada, estabelecendo que além de riscos físicos, químicos, ergonômicos, sejam também gerenciados riscos psicossociais, como estresse ocupacional; assédio moral e sexual; pressão por metas desproporcionais; sobrecarga; ambiente organizacional tóxico; conflitos interpessoais, entre outros. 

A atualização da Norma deve entrar em vigor no próximo dia 26 de maio, depois do adiamento de um ano.

Vilson Melo, presidente do Senalba Londrina, compartilha que a realização do encontro partiu de uma demanda apresentada pela própria categoria. Segundo ele, desde o último ano, tem aumentado o número de associados que procuram o Sindicato para relatar situações relacionadas ao adoecimento mental nos ambientes de trabalho. 

“Representamos muitos trabalhadores da assistência social, trabalhadores de diversos segmentos e eles têm buscado o Sindicato em relação aos riscos psicossociais. Então, neste evento, a gente vem atender esses trabalhadores, esclarecendo como funciona a lei, trazendo mais informações a toda a comunidade laboral”, indica. 

De acordo com Vilson, as denúncias mais frequentes envolvem casos de assédio moral e sexual, pressão por metas abusivas. “A demanda é muito grande e nós recebemos denúncias todos os dias por incrível que pareça. É uma situação muito triste”, afirma. 

As queixas podem ser oficializadas no site do Senalba Londrina (veja aqui) de maneira anônima. É importante que o trabalhador anexe fotos, áudios, mensagens, entre outros registros que ajudem na apuração da denúncia. 

Vilson Melo, presidente Senalba Londrina, alerta para aumento de denúncias relacionadas a adoecimento mental – Foto: Ivo Ayres

A programação foi aberta com a oferta de café da manhã, seguido de conferências. O primeiro palestrante foi Sergio Carlos Figueiredo, consultor empresarial focado no Desenvolvimento Profissional e Pessoal Sustentável, sócio da empresa TALENTPRO – Consultoria de Gente e Gestão.

Ele destacou que a NR-1 não é uma legislação nova, mas a inclusão de riscos psicossociais, tem demandado conscientização por parte de funcionários e empregadores a fim da criação de ambientes e relações de trabalho mais saudáveis. 

“A NR-1 é um assunto muito polêmico, está vindo muito forte essa atualização de fatores psicossociais que as empresas precisam se adequar. Então, é muito importante essa conscientização para o nosso empresário, para os nossos colaboradores, para que nós não tenhamos tantos afastamentos e tantos problemas trabalhistas. Por isso que é fundamental essa conscientização e essa mobilização que o nosso Senalba está fazendo hoje”, diz.

Sergio Carlos Figueiredo chama atenção para necessidade de empresas se adequarem às novas diretrizes – Foto: Ivo Ayres

Em 2024, especialistas alertaram que o Brasil já vivia uma crise de saúde mental, com o maior número de afastamentos em 10 anos, ultrapassando 470 mil licenças, segundo dados do Ministério da Previdência Social.

No último ano, o cenário não só se repete como se agrava: mais de meio milhão de licenças foram concedidas por transtornos mentais, estabelecendo um novo recorde. Ao todo, o país teve 4 milhões de licenças.

Em 2025, os afastamentos por ansiedade e depressão cresceram 15% em relação ao ano anterior e, somados, formam o segundo maior motivo de afastamento do trabalho no Brasil, atrás apenas de doenças da coluna.

Suzana Jaqueline Cordeiro, psicóloga, com experiência nas áreas de Recursos Humanos, Departamento Pessoal e diretora do Senalba desde 2015, também uma das palestrantes, ressalta que o trabalho não opera apenas como uma fonte de renda, mas um fator importante na construção da identidade dos indivíduos. “Mas quando a identidade está totalmente ligada ao trabalho qualquer ameaça compromete à própria existência”, adverte.

Para Suzana, o aumento de afastamentos está associado ao fato de que o tema está sendo mais discutido pela sociedade amplamente. “Quando um fenômeno passa a ser nomeado, pesquisado e discutido, ele não está surgindo, ele está deixando de ser invisível”, sugere. Foto: Ivo Ayres

Escuta dos trabalhadores

Já Wilson Conte de Las Villas Rodrigues, médico, professor de Psiquiatria da FEMA (Fundação Educacional do Município de Assis) ressaltou durante sua apresentação, a importância de que as empresas ouçam os trabalhadores, considerando desde sugestões de melhorias que possam ser realizadas no cotidiano à participação na construção e aperfeiçoamento de canais de denúncia e acompanhamento. 

“Desde a elaboração do diagnóstico de risco psicossocial, até a elaboração de um plano de ação em cima desses diagnósticos, a presença do trabalhador, inclusive, com canais anônimos de denúncia para que o trabalhador possa mostrar à empresa o que está acontecendo”, argumenta. 

Para ele, a atualização na NR-1, é uma oportunidade para fortalecer o diálogo entre empregadores, trabalhadores e entidades sindicais. “Eu acho que essa nova NR-1 vem para melhorar a união entre sindicato, trabalhadores e empresas em prol da saúde mental e da segurança no trabalho”, indica. 

Questionado sobre os principais fatores que têm levado ao aumento do adoecimento, o psiquiatra sinalizou a maior articulação entre os Ministério do Trabalho e Saúde, que juntos têm criado uma série de documentos para auxiliar auditores e peritos a identificarem as causalidades. 

“Hoje, a gente tem um manual de doenças relacionadas ao trabalho, que é um material de cinco anos para cá. Esse manual é muito utilizado pelos peritos na busca do nexo causal”, exemplifica. 

Ainda, o médico aponta que, de maneira geral, a temática tem sido mais discutida. “Também acho muito relevante a conscientização da população e dos trabalhadores quanto aos problemas de saúde mental, porque a verdade seja dita, até uns dez anos atrás, se falar em depressão, ansiedade era um tabu, as pessoas pouco falavam. E hoje isso já é mais abertamente discutido, não existe mais tanto preconceito com a saúde mental. Eu acho que isso é muito importante para o trabalhador e para a sociedade em geral”, avalia.

Na avaliação do psiquiatra, tema tem sido mais discutido pela sociedade em geral – Foto: Ivo Ayres

Também compôs a mesa, Thaiz Santos Cezar Principe, advogada com experiência na área trabalhista, com ênfase na assessoria e representação de entidades patronais e representante do SECRASO-NP (Sindicato das Entidades Culturais, Recreativas, de Assistência Social, de Orientação e Formação Profissional do Norte do Paraná).

Para ela, é urgente que as empresas se atentem às novas diretrizes para evitar processos trabalhistas motivados pelo descumprimento da lei, desatenção a acordos coletivos ou falhas na gestão. 

“É importante para que as empresas comecem a se adequar com as novas regras da NR-1, para evitar passivos trabalhistas que estão muito à tona na Justiça do Trabalho”, salienta. 

“As empresas começam a ser fiscalizadas pelo Ministério do Trabalho e, se elas não tiverem adequadas à NR-1, vão sofrer multas e também podem sofrer ações trabalhistas do por parte dos funcionários”, ressalta. 

Entre as exigências, empresas deverão estabelecer mecanismos como “pesquisas de clima” para acompanhar o bem-estar psicológico e agir preventivamente, além de disponibilizar canais anônimos de denúncia.

Thaiz Santos Cezar Principe, advogada, salienta que as empresas devem cumprir as exigências para evitar processos trabalhistas, que podem gerar multas – Foto: Ivo Ayres

José Milton de Souza, presidente do SECRASO-NP, classificou o debate como “excepcional”. Ele apontou que, entre os empregadores, o desconhecimento sobre o novo regulamento ainda é grande.

“É um assunto ainda controverso, mas que vai ser implementado, no nosso caso, as nossas entidades vão ter que trabalhar muito para alcançar estes objetivos”, assinala.

No entanto, a liderança enfatiza que hoje já há um diálogo estabelecido com as entidades que representam os trabalhadores, a exemplo do Senalba.

“O profissional faz a denúncia ao Senalba, que encaminha para SECRASO-NP, e nós analisamos a demanda, fazendo uma avaliação, inclusive, jurídica daquela denúncia. Falamos com a nossa entidade para esclarecer os pontos da denúncia. Quando a gente recebe a informação da nossa entidade, tanto a parte jurídica quanto a parte operacional, encaminhamos resposta ao Senalba. Então, nós já temos essa via de comunicação e preservamos muito a não identificação de quem está denunciando”, sinaliza.

Informação precisa chegar

Rita de Cássia, integrante dos Conselhos de Assistência Social e Saúde, líder comunitária e uma das fundadoras do Coletivo Mavibe (Mulheres Ativistas do Vista Bela) salientou a importância da capacitação para replicar as informações junto aos usuários, segmento de representa. 

“Tudo que foi dito pelos profissionais, para a gente é sempre um aprendizado, a gente está sempre em busca de mais informação, orientação, porque eu represento os usuários nos Conselhos. Então, para a gente é muito importante estar repassando essas informações. Muito se tem falado sobre a NR-1 nos Conselhos, mas a gente ainda percebe uma falta dessas informações chegando na ponta”, relata.

“A gente sabe que saúde mental é a questão do momento, a gente tem tentado se atentar mais a isso, tem um boom de informações na mídia digital e a gente sabe que tem muita fake news também, que atropela as orientações que a gente tem, então, eu acho que é o momento mesmo das instituições buscarem mais informações, estudarem, se qualificando para passar informações e os Conselhos precisam repassar as informações de forma coerente”, ela complementa. 

Olhar multiprofissional sobre atualizações na NR-1 é um dos destaques do debate – Foto: Ivo Ayres

Priscila Martins Cordeiro de Oliveira, trabalha na área de recursos humanos há mais de 10 anos. Para ela um dos diferenciais do evento foi a abordagem multiprofissional do regulamento.

“Eu avalio como muito positivo essa junção que fizeram, trazendo tanto médico, psicólogo, profissional de gestão e também advogado. Nós como empresa já estamos nos atualizando, mas esses conhecimentos são importantes para chamar atenção para diversos pontos que ajudam a cuidar da saúde mental dos nossos colaboradores”, pontua Priscila, que integra o Departamento de Recursos Humanos do Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) – Londrina.

“O evento foi ótimo, acho que todas as falas foram muito boas, acrescentaram muito conhecimento, não só teórico, mas também na prática, como nós vamos implementar a determinação. Valeu muito a pena ter vindo”, concorda Telcia Lamônica de Azevedo Oliveira, presidenta do NUSELON (Núcleo Social Evangélico de Londrina).

“Nós, instituições de assistência, que não temos fins lucrativos, então vivemos com poucos recursos. A questão de saúde mental tanto dos nossos acolhidos, quanto dos cuidadores, é algo desafiador realmente. E nós temos, em Londrina, uma rede ainda muito insuficiente para atender a situação de saúde mental, tanto no caso das crianças, o CAPS [Centro de Atenção Psicossocial] infantil, temos um só, e também o atendimento a pessoas adultas ainda é precário. A saúde mental precisa mesmo de olhos e recursos do poder público”, ela conclui. Informacoes do portal Verdade