Poucos acontecimentos exerceram influência tão profunda sobre a história mundial quanto a Hégira (Hijra, em árabe), a migração do profeta Maomé (Muhammad) de Meca para Medina, ocorrida em 622 d.C. Mais do que uma simples mudança de cidade, o episódio marcou o nascimento de uma nova organização social baseada no islamismo e tornou-se o ponto de partida do calendário islâmico, utilizado por cerca de dois bilhões de muçulmanos em todo o mundo para fins religiosos.

A data tradicionalmente associada ao início desse calendário é 16 de julho de 622, segundo o calendário juliano. Embora a viagem tenha ocorrido ao longo de vários dias e existam debates entre historiadores sobre sua cronologia exata, foi esse marco que passou a representar o Ano 1 da Hégira (1 AH – Anno Hegirae), inaugurando uma nova forma de contar o tempo.

Mais de quatorze séculos depois, o calendário islâmico permanece vivo. Ele regula os principais acontecimentos religiosos do islamismo, como o Ramadã, o Hajj (peregrinação a Meca) e as grandes celebrações da fé muçulmana, além de representar um dos mais importantes símbolos da identidade islâmica.

A perseguição em Meca

No início do século VII, Maomé pregava uma mensagem radicalmente inovadora para a sociedade árabe da época. Defendia a existência de um único Deus (Alá), criticava a idolatria, condenava profundas desigualdades sociais e pregava maior solidariedade entre ricos e pobres.

Essas ideias confrontavam diretamente os interesses das elites comerciais de Meca, cidade que prosperava graças ao intenso fluxo de peregrinos aos diversos cultos politeístas existentes na Caaba.

À medida que o número de seguidores aumentava, cresciam também as perseguições. Muitos dos primeiros muçulmanos sofreram boicotes econômicos, violência física e isolamento social.

Foi nesse contexto que surgiu o convite da cidade de Yathrib, posteriormente conhecida como Medina (“Cidade do Profeta”), para que Maomé atuasse como líder e mediador dos conflitos locais.

A migração transformaria para sempre a história do Oriente Médio.

O nascimento de uma nova comunidade

A Hégira representou muito mais que uma fuga.

Em Medina, Maomé tornou-se simultaneamente líder religioso, chefe político e comandante militar. Pela primeira vez, os seguidores do islamismo deixaram de ser apenas um grupo perseguido para formar uma comunidade organizada, conhecida como Ummah.

Ali foram estabelecidas regras de convivência entre diferentes grupos religiosos, acordos políticos, mecanismos de justiça e princípios que estruturariam o primeiro Estado islâmico.

Nos anos seguintes, Medina consolidou-se como centro de expansão da nova religião.

Pouco tempo depois, Maomé retornaria a Meca com milhares de seguidores, incorporando a cidade ao novo projeto político-religioso e transformando a Caaba no principal centro espiritual do islamismo.

O calendário baseado na Lua

Ao contrário do calendário gregoriano, utilizado atualmente na maior parte do planeta, o calendário islâmico é estritamente lunar.

Cada mês começa com a observação da Lua nova e possui 29 ou 30 dias.

O ano completo soma aproximadamente 354 dias, cerca de onze dias a menos que o ano solar.

Essa diferença faz com que datas religiosas mudem continuamente em relação ao calendário ocidental.

O mês do Ramadã, por exemplo, percorre todas as estações do ano ao longo de aproximadamente 33 anos.

Os doze meses do calendário islâmico são:

  • Muharram
  • Safar
  • Rabi al-Awwal
  • Rabi al-Thani
  • Jumada al-Awwal
  • Jumada al-Thani
  • Rajab
  • Sha’ban
  • Ramadã
  • Shawwal
  • Dhu al-Qadah
  • Dhu al-Hijjah

É durante Dhu al-Hijjah que acontece o Hajj, uma das maiores peregrinações religiosas do planeta.

A escolha da Hégira como marco do tempo

Curiosamente, o calendário islâmico não começou a ser utilizado imediatamente após a migração.

Foi apenas durante o governo do segundo califa, Umar ibn al-Khattab, por volta do ano 638, que surgiu a necessidade de estabelecer uma cronologia oficial para documentos administrativos e decisões do Estado.

Diversas possibilidades foram debatidas.

Alguns propuseram usar o nascimento de Maomé.

Outros sugeriram a primeira revelação do Alcorão.

A escolha recaiu sobre a Hégira porque ela simbolizava o verdadeiro nascimento da comunidade islâmica organizada.

Assim, o Ano 1 passou a corresponder à migração para Medina.

A expansão de uma civilização

A partir desse marco histórico, a expansão islâmica foi extraordinariamente rápida.

Em menos de um século após a morte de Maomé, os califados islâmicos estendiam sua influência da Península Ibérica até a Ásia Central.

Muito além das conquistas militares, desenvolveu-se uma das mais sofisticadas civilizações da história.

Durante a chamada Era de Ouro Islâmica, entre os séculos VIII e XIII, cidades como Bagdá, Cairo, Córdova e Damasco tornaram-se centros mundiais de produção científica, filosófica e cultural.

Estudiosos muçulmanos preservaram textos da Grécia Antiga, desenvolveram a álgebra, fizeram avanços decisivos na medicina, na astronomia, na geografia e na óptica, além de ampliarem o conhecimento matemático que mais tarde influenciaria profundamente o Renascimento europeu.

O calendário islâmico no mundo contemporâneo

Hoje, o calendário da Hégira continua sendo utilizado oficialmente ou de forma complementar em diversos países de maioria muçulmana, como Arábia Saudita e outros Estados do Golfo.

Mesmo onde predomina o calendário gregoriano para fins civis, o calendário islâmico permanece essencial para determinar as datas religiosas.

O início do Ramadã, a celebração do Eid al-Fitr, o Eid al-Adha e a peregrinação a Meca continuam sendo definidos conforme a tradição lunar iniciada há mais de catorze séculos.

Um marco que ultrapassa fronteiras religiosas

A Hégira representa um dos grandes pontos de inflexão da história mundial. Ela não apenas deu origem ao calendário islâmico, mas marcou o surgimento de uma civilização que exerceu influência decisiva sobre a política, a economia, a filosofia, a ciência, a arquitetura e a cultura em três continentes.

Ao escolher a migração para Medina como início da contagem do tempo, o islamismo consagrou não o nascimento de um líder nem uma vitória militar, mas a fundação de uma comunidade baseada em princípios religiosos, jurídicos e sociais. Mais de 1.400 anos depois, esse calendário permanece como um dos mais duradouros símbolos da continuidade histórica de uma das maiores tradições religiosas da humanidade.

Informações do 247