Em 8 de julho de 1994, morria Kim Il-sung, fundador da República Popular Democrática da Coreia (RPDC) e principal arquiteto do Estado norte-coreano. Sua morte encerrou quase meio século de liderança política, mas não interrompeu o projeto que concebeu. Trinta e dois anos depois, a Coreia do Norte continua sendo um dos países mais singulares do planeta, preservando um sistema político que sobreviveu ao fim da Guerra Fria, ao colapso da União Soviética e às profundas transformações da ordem internacional.
Para admiradores, Kim Il-sung foi um líder revolucionário que libertou a Coreia da ocupação japonesa, promoveu a industrialização e garantiu a soberania nacional diante das grandes potências. Para seus críticos, foi responsável pela criação de um regime altamente centralizado, marcado pelo partido único, pela limitação das liberdades políticas e pelo culto à personalidade. Independentemente das interpretações, poucos líderes do século XX exerceram influência tão duradoura sobre o destino de seu país.
A história de Kim Il-sung se confunde com a própria história da Coreia do Norte. Entender sua trajetória é compreender como surgiu um Estado que, até hoje, desafia as categorias tradicionais da política internacional.
Da resistência antijaponesa ao poder
Kim Il-sung nasceu em 1912, quando a Península Coreana vivia sob domínio do Império Japonês. Ainda jovem, participou da resistência armada contra a ocupação, integrando grupos guerrilheiros que atuavam na Manchúria.
A luta contra o colonialismo japonês tornou-se o principal elemento de legitimidade de sua liderança política. Após a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, em 1945, a península foi dividida ao longo do paralelo 38: o norte ficou sob influência soviética, enquanto o sul passou à esfera de influência dos Estados Unidos.
Em 1948 foi proclamada a República Popular Democrática da Coreia, com Kim Il-sung como primeiro-ministro e principal dirigente político.
A Guerra da Coreia e a divisão definitiva
Dois anos depois, em 1950, teve início a Guerra da Coreia, um dos conflitos mais sangrentos do século XX. O confronto envolveu diretamente forças da Coreia do Norte, da Coreia do Sul, dos Estados Unidos, da China e de outros países que atuaram sob a bandeira das Nações Unidas.
Após três anos de combates, milhões de pessoas haviam morrido e grande parte da península encontrava-se devastada. O armistício assinado em 1953 encerrou os combates, mas nunca foi substituído por um tratado de paz definitivo.
Desde então, as duas Coreias permanecem tecnicamente em estado de guerra.
A ideologia Juche
Uma das maiores contribuições políticas de Kim Il-sung foi a formulação da ideologia Juche, frequentemente traduzida como autossuficiência ou independência nacional.
Mais do que um conceito econômico, o Juche tornou-se uma filosofia de Estado baseada na soberania política, na autonomia econômica e na capacidade de defesa militar própria.
Embora tenha mantido relações estreitas com União Soviética e China durante a Guerra Fria, a Coreia do Norte buscou preservar certa independência diante das duas potências socialistas, especialmente após o rompimento sino-soviético.
Essa estratégia permitiu ao país evitar alinhamentos automáticos e construir uma identidade política própria.
Industrialização e desenvolvimento
Nas décadas de 1950 e 1960, a Coreia do Norte apresentou um ritmo acelerado de reconstrução econômica.
Com forte planejamento estatal e amplo investimento em infraestrutura, indústria pesada, educação e saúde, o país alcançou indicadores que, durante algum tempo, superaram os da Coreia do Sul.
Somente a partir das décadas seguintes, especialmente com a abertura econômica sul-coreana e a integração ao comércio global, as trajetórias dos dois países passaram a divergir profundamente.
O colapso da União Soviética, no início dos anos 1990, agravou ainda mais os desafios econômicos enfrentados por Pyongyang.
O poder como herança
Após a morte de Kim Il-sung, em 1994, o comando do país passou para seu filho, Kim Jong-il, consolidando uma sucessão inédita entre Estados socialistas.
Em 2011, após a morte de Kim Jong-il, o poder foi transferido para Kim Jong-un, neto do fundador da República Popular Democrática da Coreia.
Essa continuidade familiar tornou-se uma das características mais marcantes do sistema político norte-coreano.
Enquanto muitos analistas ocidentais previram repetidamente o colapso do regime, o Estado norte-coreano permaneceu politicamente estável ao longo das últimas décadas.
O programa nuclear e a busca por segurança
No período posterior à morte de Kim Il-sung, a Coreia do Norte intensificou o desenvolvimento de seu programa nuclear.
Pyongyang afirma que sua capacidade militar constitui uma garantia contra intervenções externas, apontando exemplos como Iraque e Líbia, cujos governos foram derrubados após abrirem mão de programas estratégicos de defesa.
Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul, por sua vez, consideram o arsenal nuclear norte-coreano uma ameaça à estabilidade regional e defendem sua desnuclearização.
Essa disputa permanece como um dos principais focos de tensão da geopolítica contemporânea.
Um legado que divide opiniões
Poucos personagens históricos despertam avaliações tão distintas quanto Kim Il-sung.
Para parte da população norte-coreana e para diversos estudiosos da história asiática, ele simboliza a independência nacional conquistada após décadas de ocupação colonial e a capacidade de um pequeno país resistir às pressões das grandes potências.
Já organizações internacionais de direitos humanos e governos ocidentais apontam o legado de Kim Il-sung como a origem de um sistema político autoritário, marcado por forte controle estatal sobre a sociedade.
Essas interpretações contrastantes refletem não apenas diferentes leituras da história coreana, mas também as profundas divisões ideológicas que marcaram o século XX e ainda influenciam o cenário internacional.
A permanência de um projeto histórico
Mais de três décadas após sua morte, Kim Il-sung continua ocupando um lugar central na identidade política da Coreia do Norte. Sua imagem permanece presente nas instituições, na memória oficial e na narrativa histórica do país.
Independentemente das avaliações sobre seu governo, sua influência ultrapassou sua própria época. O Estado que fundou continua desempenhando um papel estratégico no equilíbrio de forças do Leste Asiático, especialmente diante da rivalidade entre Estados Unidos e China.
No aniversário de sua morte, recordar Kim Il-sung é também revisitar um dos capítulos mais decisivos da história contemporânea, marcado pela descolonização, pela Guerra Fria, pela divisão da Península Coreana e pelas disputas geopolíticas que seguem moldando o século XXI. Informações do 247



