Em 31 de julho de 1912 nascia, no bairro do Brooklyn, em Nova York, Milton Friedman, economista que se tornaria o principal expoente do monetarismo e uma das figuras mais influentes do pensamento neoliberal. Vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 1976, Friedman transformou-se em referência para governos conservadores e para instituições financeiras internacionais que, a partir dos anos 1980, passaram a difundir uma agenda baseada na redução do papel do Estado, na desregulamentação dos mercados, na privatização de empresas públicas e na liberalização dos fluxos de capitais.
Para seus admiradores, Friedman foi um defensor da liberdade econômica e um crítico da intervenção estatal. Para seus críticos, entretanto, sua obra forneceu a justificativa teórica para um conjunto de políticas que ampliaram desigualdades, enfraqueceram o Estado de bem-estar social, reduziram direitos trabalhistas e contribuíram para sucessivas crises financeiras ao redor do mundo.
A escola que moldou o neoliberalismo
Professor da Universidade de Chicago por décadas, Friedman consolidou a chamada Escola de Chicago como um dos principais centros de difusão do pensamento neoliberal. Sua defesa da supremacia dos mercados sobre a ação do Estado influenciou profundamente líderes como Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e Margaret Thatcher, no Reino Unido, além de organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial.
As recomendações inspiradas em suas ideias passaram a orientar programas de ajuste fiscal, privatizações em larga escala, flexibilização das leis trabalhistas e abertura financeira em diversos países, especialmente na América Latina, na Europa Oriental e em economias em desenvolvimento.
O laboratório chileno
Um dos capítulos mais controversos da trajetória de Friedman foi sua relação com o Chile após o golpe militar de 1973. Embora tenha feito apenas uma breve visita ao país e sustentasse que defendia reformas econômicas, não a ditadura, suas ideias foram implementadas pelos chamados “Chicago Boys”, economistas formados na Universidade de Chicago que ocuparam posições centrais no governo de Augusto Pinochet.
O experimento chileno tornou-se símbolo da associação entre neoliberalismo e autoritarismo. As reformas produziram privatizações profundas, cortes de gastos públicos e desregulamentação econômica, enquanto eram aplicadas sob um regime responsável por graves violações de direitos humanos.
Desregulamentação e crises
Outro alvo recorrente das críticas dirigidas a Friedman é sua defesa da desregulamentação dos mercados financeiros. Ao longo das décadas seguintes, essa visão ganhou força nos Estados Unidos e em outras economias desenvolvidas, contribuindo para a expansão do setor financeiro e para o enfraquecimento dos mecanismos de supervisão pública.
Diversos economistas apontam que esse processo criou as condições para crises de grandes proporções, culminando no colapso financeiro de 2008, quando a quebra do mercado imobiliário americano desencadeou a maior recessão global desde 1929. Embora Friedman tenha falecido em 2006, muitos de seus críticos consideram que o ambiente regulatório que antecedeu a crise refletia diretamente sua influência intelectual.
O aumento da desigualdade
Nas últimas décadas, estudos de organismos internacionais e pesquisadores têm mostrado que o período de predominância das políticas neoliberais foi acompanhado por forte concentração de renda e riqueza em diversos países.
Críticos afirmam que a prioridade conferida ao mercado em detrimento das políticas públicas enfraqueceu sistemas de proteção social, reduziu investimentos estatais e ampliou a precarização do trabalho, tornando economias mais vulneráveis a choques financeiros e aprofundando desigualdades.
Um legado cada vez mais contestado
Mais de um século após seu nascimento, Milton Friedman continua sendo celebrado por setores do mercado financeiro, por economistas liberais e por defensores do Estado mínimo. Ao mesmo tempo, sua obra enfrenta crescente contestação diante do aumento das desigualdades, da recorrência das crises financeiras, da emergência climática e do retorno de políticas industriais e de planejamento estatal em várias economias.
A ascensão da China, com um modelo que combina planejamento estratégico, empresas estatais fortes e mecanismos de mercado, bem como o ressurgimento de políticas industriais nos Estados Unidos e na União Europeia, também alimentaram o debate sobre os limites do receituário neoliberal que Friedman ajudou a formular.
No aniversário de seu nascimento, a figura de Milton Friedman permanece no centro de uma das maiores controvérsias da história do pensamento econômico: para uns, o grande defensor da liberdade de mercado; para outros, o principal ideólogo de um modelo que contribuiu para sucessivas catástrofes econômicas e para o aprofundamento das desigualdades no capitalismo contemporâneo. Informações do 247



