A inteligência artificial já entrou na campanha presidencial de 2026 e a maioria dos brasileiros acredita estar preparada para reconhecer conteúdos políticos produzidos ou alterados pela tecnologia. Segundo a nova pesquisa Indexa / Broadcast, 72% dos eleitores se consideram totalmente capazes ou mais capazes que incapazes de identificar quando uma foto, áudio ou vídeo de um candidato foi criado ou alterado por inteligência artificial, os chamados deepfakes.

Do total de entrevistados, 39% se consideram totalmente capazes de identificar esse tipo de conteúdo e outros 33% se dizem mais capazes que incapazes. Na outra ponta, 14% afirmam ser totalmente incapazes e 10% se consideram mais incapazes que capazes. Outros 4% não souberam responder.

O tema deixou de ser apenas uma preocupação para o futuro e já faz parte da campanha eleitoral. Em 25 de julho, durante a convenção nacional do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, um vídeo produzido por inteligência artificial simulando a imagem e a voz do ex-presidente Jair Bolsonaro foi exibido em um telão. No início da gravação, o avatar informava ao público que se tratava de uma simulação produzida por IA. Na sequência, a representação digital de Bolsonaro manifestava apoio à candidatura do filho.

O episódio também chegou ao Judiciário. A defesa de Jair Bolsonaro informou posteriormente ao Supremo Tribunal Federal que o ex-presidente não havia autorizado a utilização de sua imagem e voz. Flávio Bolsonaro também afirmou que o pai não tinha conhecimento prévio da produção e sustentou que sua equipe havia estudado a legislação antes de utilizar o recurso.

Para o sociólogo e CEO da Indexa Pesquisas, Arilton Freres, o episódio mostra como a discussão sobre inteligência artificial passou rapidamente do campo das possibilidades para a realidade eleitoral.

“A inteligência artificial já está presente na campanha e tende a ser utilizada de diferentes maneiras até a eleição. O dado que chama atenção é que a maioria dos brasileiros acredita que consegue reconhecer um conteúdo criado ou manipulado por IA. Essa confiança do eleitor será colocada à prova diante de tecnologias cada vez mais sofisticadas e conteúdos que circulam muito rapidamente pelas redes sociais”, afirma Freres.

Jovens e pessoas com ensino superior demonstram maior confiança

O cruzamento por faixa etária mostra que a confiança na própria capacidade de reconhecer conteúdos manipulados é maior entre os eleitores de 25 a 34 anos. Nesse grupo, 46% se dizem totalmente capazes e 33%, mais capazes que incapazes. Somadas as duas respostas, 79% acreditam ter capacidade para identificar um deepfake.

Entre os brasileiros de 35 a 44 anos, o índice também chega a 81%, resultado da soma dos 44% que se consideram totalmente capazes com os 37% que se dizem mais capazes que incapazes.

Entre os mais jovens, de 16 a 24 anos, 40% se consideram totalmente capazes e 37%, mais capazes que incapazes, totalizando 77%.

A percepção muda entre os mais velhos. Dos 45 aos 59 anos, 69% se consideram capazes em algum grau, sendo 35% totalmente capazes e 34% mais capazes que incapazes. Entre os brasileiros com 60 anos ou mais, esse percentual cai para 53%: 29% se consideram totalmente capazes e 24%, mais capazes que incapazes. Nesse grupo, 24% se declaram totalmente incapazes e outros 17%, mais incapazes que capazes.

A escolaridade também apresenta diferenças importantes. Entre os brasileiros com ensino superior ou mais, 82% acreditam ser capazes de identificar conteúdos criados ou alterados por IA: 44% se consideram totalmente capazes e 38%, mais capazes que incapazes.

Entre aqueles com ensino médio, o percentual é de 69%, enquanto entre os entrevistados que estudaram até o ensino fundamental chega a 67%. Nesse último grupo, 40% se consideram totalmente capazes e 27%, mais capazes que incapazes.

Os resultados indicam, portanto, que a autoconfiança para reconhecer deepfakes está relacionada tanto à idade quanto à escolaridade, mas não de maneira completamente linear. Os eleitores de 35 a 44 anos apresentam, por exemplo, uma percepção de capacidade ligeiramente superior à registrada entre os mais jovens.

92% rejeitam deepfakes contra adversários

A resistência do eleitor ao uso político dos deepfakes é ainda mais expressiva quando a tecnologia é empregada para atingir adversários.

Questionados se deveria ser permitido que um candidato utilize deepfake em conteúdos envolvendo um candidato adversário, 92% dos brasileiros respondem que não. Apenas 6% consideram que esse tipo de utilização deveria ser permitido, enquanto 2% não souberam responder.

A pesquisa também perguntou sobre o uso da tecnologia para favorecer a própria candidatura. Nesse caso, 84% são contrários, 13% consideram que deveria ser permitido e 3% não souberam responder.

Para Arilton Freres, a diferença entre a confiança dos eleitores para reconhecer manipulações e a ampla rejeição ao uso eleitoral da tecnologia é um dos principais achados do levantamento.

“O eleitor demonstra uma posição bastante clara sobre os limites da inteligência artificial na política. Mesmo acreditando que consegue identificar conteúdos manipulados, a maioria esmagadora rejeita o uso de deepfakes contra adversários. Isso indica que a preocupação não está apenas em ser enganado, mas também na percepção de que existem limites que as campanhas não deveriam ultrapassar no uso da tecnologia”, analisa.

Sobre a pesquisa

A pesquisa Indexa / Broadcast ouviu 2 mil eleitores brasileiros entre os dias 20 e 23 de agosto de 2026, por meio de entrevistas individuais por telefone (CATI), com questionário estruturado. A amostra foi estratificada pelas grandes regiões, com alocação proporcional ao eleitorado, e ponderada por gênero, faixa etária, escolaridade, renda e região.

O levantamento tem nível de confiança de 95% e margem de erro máxima estimada de 2,2 pontos percentuais para o conjunto da amostra.

A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-06366/2026.