Em 19 de agosto de 1976, uma explosão no prédio sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), situado no centro do Rio de Janeiro, enviou uma mensagem clara contra a liberdade de expressão em um período de intensa resistência à censura exercida pela ditadura militar brasileira, relembra o portal Aventuras na História.
Ao completar 50 anos do episódio, nesta quarta-feira (19), a ABI relembra o atentado terrorista e ressalta a importância da liberdade de imprensa para a valorização e a manutenção dos meios democráticos. A bomba explodiu no sétimo andar do edifício número 71 da Rua Araújo Porto Alegre. Embora ninguém tenha ficado ferido, os estragos materiais deixados pela explosão reconstroem a memória das agressões sofridas no período.
De acordo com relatos da época, o impacto da explosão destruiu dois banheiros localizados próximos à sala da presidência da entidade, afetando também as estruturas do elevador e os andares vizinhos.
Atualmente, o edifício de 13 andares, construído em 1938, continua sendo a sede da ABI. No entanto, são as fotografias do acervo que conseguem retratar a dimensão exata daquele ataque à liberdade de manifestação e de pensamento.
Ação de extrema-direita durante o distensionamento da ditadura
Na época do ataque, o Brasil vivia o processo de “distensão” do regime militar. Embora a ditadura tenha surgido sob a promessa de permanecer por poucos anos e devolver o poder a um governo democrático, o país enfrentou 21 anos de destituição da democracia. Nos anos finais do regime, o plano dos militares era conduzir um “distensionamento” controlado para permitir a transição política, decisão que enfrentou oposição de setores radicais da sociedade.
Foi o caso do grupo paramilitar de extrema-direita Aliança Anticomunista Brasileira (AAB), que assumiu a autoria do atentado à sede da ABI por meio da distribuição de um panfleto. No manifesto, os extremistas alegavam que a entidade estava “totalmente dominada pelos comunistas” e que a bomba servia como uma “primeira advertência”.
O atual presidente da ABI, Octávio Costa, comentou a posição histórica da entidade no conflito. “Ao defender a liberdade de imprensa, os direitos humanos e a livre manifestação do pensamento, tornou-se também alvo da intolerância de grupos radicais de extrema-direita, contrários aos incipientes movimentos de abertura política – a chamada ‘distensão’ do regime ditatorial”, afirmou.
Cenário amplo de violência política e impunidade
A ação contra a ABI não foi um caso isolado, mas parte de um contexto estrutural de violência e intimidação política voltado a conter qualquer avanço das liberdades democráticas.
No mesmo dia do ataque à ABI, outra bomba foi instalada na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), também no Rio de Janeiro. O segundo artefato só não explodiu devido a uma falha no mecanismo de ativação, o que evitou duas detonações simultâneas na cidade.
Dezenas de outros atentados foram registrados durante o governo de Ernesto Geisel, período classificado pelo próprio general como uma abertura “lenta, gradual e segura”. Apenas entre os meses de agosto e novembro de 1976, ocorreram nove atentados terroristas no Rio de Janeiro, sendo oito deles reivindicados pela AAB.
Apesar da sucessão de atos terroristas praticados contra entidades civis e da existência de um amplo aparato de inteligência e repressão no país, os autores dos atentados nunca foram identificados ou responsabilizados.



