Há exatos 81 anos, em 17 de agosto de 1945, Sukarno e Mohammad Hatta proclamavam a independência da Indonésia, dando início ao processo que romperia séculos de dominação colonial sobre o arquipélago e criaria as bases de uma das maiores nações do Sul Global. A data permanece como o principal marco nacional indonésio e ganha novo significado em um momento de fortalecimento do BRICS e de crescente protagonismo político, econômico e demográfico da Ásia.
A proclamação ocorreu em Jacarta, apenas dois dias depois da rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial. Sukarno, que se tornaria o primeiro presidente da Indonésia, leu ao lado de Hatta uma declaração breve anunciando que o povo indonésio assumia sua própria soberania.
A independência, entretanto, não seria imediatamente aceita pelos Países Baixos, potência colonial que havia controlado grande parte do território durante séculos. Seguiram-se anos de luta militar e negociação diplomática até que, em 1949, os neerlandeses reconhecessem formalmente a soberania indonésia.
A trajetória iniciada em 1945 transformaria a Indonésia em uma referência histórica do anticolonialismo asiático. Dez anos depois, em 1955, o país sediaria a Conferência de Bandung, encontro que reuniu lideranças da Ásia e da África e se tornou um dos grandes marcos políticos da emergência do Sul Global.
Séculos de colonialismo europeu
A história da colonização da Indonésia está profundamente ligada à expansão comercial europeia iniciada no século XVI.
O arquipélago ocupava posição estratégica nas rotas marítimas e possuía produtos extremamente valorizados no comércio internacional, especialmente especiarias. Portugueses, espanhóis, britânicos e neerlandeses disputaram influência sobre diferentes partes da região.
A Companhia Neerlandesa das Índias Orientais, criada em 1602, tornou-se o principal instrumento da expansão dos Países Baixos no arquipélago. Com poderes comerciais, administrativos e militares, a companhia estabeleceu monopólios e ampliou progressivamente o domínio neerlandês.
Depois de sua dissolução, no fim do século XVIII, os territórios passaram diretamente para o controle colonial dos Países Baixos, formando as Índias Orientais Neerlandesas.
A dominação colonial seria contestada por diferentes movimentos de resistência e, no início do século XX, um nacionalismo indonésio organizado começou a ganhar força.
Sukarno emergiria como uma de suas principais lideranças.
Ocupação japonesa abalou domínio europeu
A Segunda Guerra Mundial alterou radicalmente o equilíbrio de forças no Sudeste Asiático.
Em 1942, tropas japonesas derrotaram as forças neerlandesas e ocuparam as Índias Orientais Neerlandesas. A ocupação japonesa foi marcada por repressão, exploração econômica, trabalho forçado e grandes dificuldades para a população.
Ao mesmo tempo, a derrota dos antigos colonizadores europeus abalou profundamente a imagem de invencibilidade das potências ocidentais.
Sukarno e outras lideranças nacionalistas procuraram utilizar as circunstâncias abertas pela guerra para ampliar a organização política e preparar as condições para a independência.
Quando o Japão anunciou sua rendição, em agosto de 1945, surgiu uma janela histórica.
Setores mais jovens do movimento nacionalista pressionaram Sukarno e Hatta para que a independência fosse proclamada imediatamente, antes que os Países Baixos conseguissem restabelecer sua autoridade colonial.
Em 17 de agosto, a ruptura foi anunciada.
Independência precisou ser defendida
A proclamação não encerrou o conflito.
Os Países Baixos tentaram recuperar sua antiga colônia, dando início a uma guerra que se prolongaria até 1949. Os indonésios combinaram resistência armada, mobilização política e atuação diplomática internacional para defender a independência.
A tentativa neerlandesa de restaurar o domínio colonial enfrentou crescente oposição internacional no contexto do pós-guerra, quando movimentos de libertação nacional começavam a se espalhar pela Ásia e posteriormente pela África.
A resistência da população indonésia tornou cada vez mais difícil a restauração da antiga ordem.
Em dezembro de 1949, os Países Baixos finalmente reconheceram a soberania da Indonésia, embora disputas territoriais ainda permanecessem.
A vitória teve importância muito além das fronteiras do arquipélago. Ela demonstrava que o sistema colonial europeu, apesar da tentativa das antigas potências de preservá-lo após a Segunda Guerra Mundial, entrava em uma crise irreversível.
Bandung transformou Indonésia em referência do Sul Global
A dimensão internacional da independência indonésia ficaria ainda mais evidente uma década depois.
Em abril de 1955, a cidade de Bandung recebeu representantes de 29 países asiáticos e africanos para uma conferência que se tornaria um marco da história política do século XX.
A Conferência de Bandung reuniu países recém-independentes e movimentos de uma ordem internacional que buscava escapar da submissão às antigas potências coloniais e da divisão rígida do mundo entre Estados Unidos e União Soviética.
Entre as grandes lideranças associadas àquele momento estavam Sukarno, Jawaharlal Nehru, da Índia, Gamal Abdel Nasser, do Egito, Zhou Enlai, da China, e outras figuras centrais da emancipação afro-asiática.
A defesa da soberania nacional, da coexistência pacífica, da autodeterminação dos povos e da cooperação entre países em desenvolvimento ajudou a construir as bases políticas do que posteriormente seria chamado de Sul Global.
Bandung também influenciaria a criação do Movimento dos Países Não Alinhados.
A Indonésia deixava, assim, de ser apenas uma antiga colônia que conquistara sua independência. Passava a participar ativamente da formulação de uma visão alternativa para a ordem internacional.
Uma potência demográfica e econômica
O país que surgiu daquela luta é hoje uma das maiores nações do planeta.
Com uma população superior a 280 milhões de habitantes, a Indonésia é o quarto país mais populoso do mundo e a maior economia do Sudeste Asiático.
Sua posição geográfica também lhe confere enorme importância estratégica. O arquipélago está situado entre os oceanos Índico e Pacífico e próximo de algumas das principais rotas marítimas utilizadas pelo comércio mundial.
A Indonésia possui ainda vastos recursos naturais e desempenha papel central em cadeias produtivas estratégicas. O país tornou-se particularmente importante no mercado mundial de níquel, mineral essencial para baterias e para a transição energética.
Nos últimos anos, Jacarta adotou políticas destinadas a reduzir a simples exportação de matérias-primas e estimular a industrialização dentro do próprio território.
Essa estratégia dialoga diretamente com uma questão central para as economias do Sul Global: como transformar abundância de recursos naturais em capacidade industrial, domínio tecnológico, empregos e aumento da renda nacional.
Entrada no BRICS recupera espírito de Bandung
O ingresso da Indonésia no BRICS adicionou uma dimensão contemporânea à trajetória iniciada em 17 de agosto de 1945.
A presença indonésia amplia o peso demográfico, econômico e geopolítico do grupo e fortalece sua representação no Sudeste Asiático.
Há também uma continuidade histórica simbólica.
O país que ajudou a reunir Ásia e África em Bandung participa hoje de uma articulação que procura ampliar a influência das economias emergentes nas instituições internacionais e defender uma ordem mundial mais representativa.
O BRICS reúne países com sistemas políticos, culturas e interesses distintos. Seu elemento de convergência está sobretudo na busca por maior participação na governança global e pela ampliação dos mecanismos de cooperação econômica entre países fora do núcleo tradicional das potências ocidentais.
Para a Indonésia, essa agenda encontra raízes em sua própria formação como Estado independente.
Indonésia e Brasil no mundo multipolar
Brasil e Indonésia compartilham características que tornam sua aproximação particularmente relevante.
São duas das maiores democracias e economias do Sul Global, possuem grandes populações, extensos territórios, biodiversidade extraordinária e abundância de recursos naturais.
Os dois países também enfrentam desafios semelhantes: industrializar suas economias, agregar valor aos recursos naturais, ampliar a inclusão social, preservar florestas e biodiversidade e aumentar sua influência nas decisões internacionais.
A presença conjunta no BRICS amplia as possibilidades de cooperação em comércio, investimentos, energia, agricultura, transição energética, tecnologia e reforma das instituições multilaterais.
Essa aproximação também expressa uma transformação mais ampla da economia mundial.
O eixo econômico internacional desloca-se progressivamente em direção à Ásia, enquanto países do Sul Global procuram construir novas formas de cooperação sem necessariamente reproduzir relações históricas de dependência.
O legado de 17 de agosto
A independência indonésia pertence a um dos processos históricos mais importantes do século XX: a descolonização.
Depois da Segunda Guerra Mundial, dezenas de povos da Ásia, África, Caribe e outras regiões conquistaram Estados independentes, desmontando progressivamente os grandes impérios coloniais europeus.
A Indonésia esteve entre os protagonistas desse processo.
Sua experiência demonstrou que a independência formal precisava ser acompanhada pela construção de soberania econômica e capacidade de atuação internacional — debate que permanece atual oito décadas depois.
Em 17 de agosto de 1945, Sukarno e Mohammad Hatta anunciaram ao mundo o nascimento político de uma nova nação. Dez anos mais tarde, Bandung transformaria essa experiência nacional em uma mensagem internacional de emancipação e cooperação entre os povos.
Oitenta e um anos depois, com a Indonésia entre as grandes economias emergentes e integrada ao BRICS, a proclamação de independência permanece como um marco não apenas da história do país, mas da longa luta do Sul Global por soberania, desenvolvimento e maior protagonismo na ordem mundial. Informações do 247



