O curta-metragem CANA, dirigido e escrito por Guilherme Xavier Ribeiro e Daniel Rone, encerrou sua participação no 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro como o curta mais premiado da edição. Filmado no Oeste Paulista e realizado a partir de uma rede de profissionais formada no interior de São Paulo e Paraná, o filme conquistou cinco prêmios na cerimônia realizada no Cine Brasília, no dia 19 de setembro.

Além do Candango de Melhor Curta-Metragem pelo Júri Oficial, CANA recebeu o Prêmio da Crítica Abraccine de Melhor Curta-Metragem, concedido pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema, e o Prêmio Canal Brasil de Curtas. O ator Gerin Black recebeu o Candango de Melhor Ator, enquanto Guilherme Xavier Ribeiro e Daniel Rone foram premiados pela Melhor Trilha Sonora.

CANA é a quarta coprodução entre a Oeste Cinema, de Assis (SP) e a Kinopus, de Londrina (PR). Anteriormente haviam sido produzidos ‘Despovoado, ou tudo que a gente podia ser‘ (2023), de Guilherme Xavier Ribeiro, com Rolando Boldrin no elenco; ‘Veredas‘ (2025), de Igor Rossato; e ‘Marmita‘ (2025), de Guilherme Peraro, vencedor do Prêmio de Aquisição do Canal Brasil na Mostra de Tiradentes.

Os cinco reconhecimentos coroaram a estreia nacional do filme, exibido pela primeira vez no Festival de Brasília em 15 de setembro, dentro da Mostra Competitiva Nacional de Curtas-Metragens, e consolidam a parceria iniciada em 2015 entre a Oeste e a Kinopus.

PARTICIPAÇÃO LONDRINENSE

Produzido por Guilherme Peraro, CANA conta com o ator londrinense MC Gérin entre os protagonistas, além do diretor de fotografia Anderson Craveiro, do gaffer Luiz Rossi, do técnico de som direto Giovani Nori e do designer Guilherme Gerais. 

Com o prêmio de Melhor Ator para o rapper e bailarino londrinense Gérin Black, trata-se da terceira vez que um londrinense é premiado em Brasília. A primeira foi em 1986, quando o músico Arrigo Barnabé conquistou o Candango de Melhor Trilha Sonora pelo longa ‘Vera’, de Sérgio Toledo. Em 2013, Artur Ianckievicz conquistou o prêmio de Melhor Som para o curta ‘Sylvia’, que ele mesmo dirigiu.

Trata-se do quinto prêmio de Aquisição do Canal Brasil para uma produção londrinense: anteriormente os curtas ‘Satori Uso’ (2007), ‘Booker Pittman’ (2008) e ‘Haruo Ohara’ (2010), de Rodrigo Grota, e ‘Marmita’ (2025), de Guilherme Peraro, haviam conquistado esse mesmo prêmio.

E o prêmio de Melhor Ator para MC Gérin é o segundo prêmio de destaque nacional para um ator londrinense: em 2005, a atriz nipo-brasileira Aya Ono, radicada em Londrina há décadas, conquistara o Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme ‘Gaijin 2′, de Tizuka Yamasaki, no Festival de Cinema de Gramado.

UM FILME NASCIDO NO INTERIOR

Produzido pela Oeste Cinema, de Assis (SP), CANA foi realizado no interior paulista e tem sua concepção diretamente relacionada à paisagem social, econômica e humana do Oeste Paulista.

O filme acompanha dois jovens periféricos, interpretados por Gerin Black e Silas Pinheiro, que atravessam uma rodovia a bordo de uma caminhonete gigante. Ao redor deles, o horizonte é tomado pela monocultura da cana-de-açúcar. Durante o trajeto, desejos, medos e ressentimentos começam a emergir enquanto os personagens antecipam aquilo que poderão encontrar pelo caminho.

A paisagem não funciona apenas como cenário. Os extensos canaviais, as rodovias e pequenas cidades do interior constituem o universo dramático do filme e participam da construção de uma espécie de fábula contemporânea sobre juventude periférica, consumo, racismo, violência e ausência de perspectivas.

Essa relação entre cinema e território está no centro do trabalho desenvolvido pela Oeste Cinema e pelo Polo Audiovisual do Velho Oeste, iniciativa dedicada ao desenvolvimento do audiovisual no Oeste Paulista. O Polo atua desde 2019 nos eixos de formação, apoio à produção e circulação de filmes, buscando criar condições para que profissionais e comunidades do interior possam produzir e contar suas próprias histórias.

CANA contou com apoio do Polo Audiovisual do Velho Oeste, e sua equipe foi formada majoritariamente por profissionais da região de Assis. O filme é uma produção da Oeste Cinema, em coprodução com a Kinopus, de Londrina (PR), e a produtora francesa Filmo 2. O projeto recebeu financiamento do ProAC Editais, do Governo do Estado de São Paulo, e da Lei Paulo Gustavo de Assis.

Para seus realizadores, a trajetória do filme em Brasília reforça a possibilidade de construir um cinema brasileiro contemporâneo a partir de territórios distantes dos grandes centros de produção.

REPERCUSSÃO DA CRÍTICA

Antes mesmo da premiação, CANA tornou-se um dos curtas de maior repercussão crítica da Mostra Competitiva Nacional.

No Cinema Escrito, o crítico Luiz Joaquim definiu o filme como “puro frescor e energia criativa em forma de cinema”, destacando ainda a autenticidade dos diálogos e a transformação gradual da narrativa em uma experiência próxima ao horror.

Também no Cinema Escrito, em texto produzido durante a Oficina de Crítica do Festival, Luna Neves destacou as “atuações sólidas, direção inteligente e linguagem visual marcante” do curta.

No Cineweb, Neusa Barbosa descreveu CANA como “um agudo retrato de um sufocamento interiorano paulista”, chamando atenção para a transformação de uma situação inicialmente realista em uma narrativa de contornos distópicos.

A Revista Lume definiu o filme como “uma parábola poderosa e perturbadora”, destacando a maneira como, em apenas 15 minutos, o curta atravessa elementos do suspense, do terror e da ficção científica.

Para Luiz Zanin, em Cinema, Cultura & Afins, CANA é “intenso”, enquanto a cobertura da Revista de Cinema, de Maria do Rosário Caetano, colocou o filme entre os destaques da competição de curtas antes mesmo da premiação. Após a cerimônia, a publicação voltou ao filme, descrevendo sua narrativa como uma “história densa e sacudida”.

A recepção crítica encontrou confirmação na noite de premiação: além da escolha do Júri Oficial, CANA recebeu justamente o Prêmio Abraccine, concedido pela crítica cinematográfica brasileira.

CINCO PRÊMIOS EM BRASÍLIA

A passagem de CANA pelo 59º Festival de Brasília resultou nos seguintes reconhecimentos:

• Melhor Curta-Metragem — Júri Oficial
• Melhor Ator — Gerin Black
• Melhor Trilha Sonora — Guilherme Xavier Ribeiro e Daniel Rone
• Prêmio Abraccine de Melhor Curta-Metragem
• Prêmio Canal Brasil de Curtas

Com os cinco prêmios, CANA encerrou o Festival como o curta-metragem mais premiado da 59ª edição.A conquista também representa uma continuidade na trajetória de Guilherme Xavier Ribeiro e Daniel Rone. Os realizadores já haviam trabalhado juntos em Ainda Restarão Robôs nas Ruas do Interior Profundo, curta selecionado para o Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, além de dezenas de festivais internacionais, finalista do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e vencedor do Prêmio Canal Brasil de Curtas.

Com CANA, a dupla recebe novamente o Prêmio Canal Brasil, agora acompanhado pelo principal prêmio da competição nacional de curtas do Festival de Brasília e pelo reconhecimento da Abraccine.

SOBRE O POLO AUDIOVISUAL DO VELHO OESTE

O Polo Audiovisual do Velho Oeste é uma iniciativa de fomento ao cinema realizado no interior, com atuação especialmente voltada ao Oeste Paulista. Desde 2019, o projeto trabalha em três frentes complementares — formação, apoio à produção e circulação de filmes — buscando estruturar uma cadeia audiovisual fora dos grandes centros. Suas ações incluem capacitação de profissionais, atividades de cinema e educação, oficinas em comunidades e territórios específicos, suporte a produções, articulação econômica regional e formação de público. A proposta é fazer com que o território deixe de funcionar apenas como locação para produções externas e passe a formar profissionais, desenvolver projetos e produzir suas próprias representações.

A realização de CANA e sua trajetória no Festival de Brasília materializam esse processo: um filme construído a partir da paisagem, dos profissionais e das questões do interior paulista alcança uma das principais vitrines do cinema brasileiro.

SOBRE CANA

CANA
Brasil/França | Ficção | 15 min | 2026
Dois jovens periféricos conduzem uma caminhonete gigante por uma rodovia cercada de cana, enquanto lidam com seus desejos e receios do que possa acontecer no caminho.

Roteiro e direção: Guilherme Xavier Ribeiro e Daniel Rone
Elenco principal: Gerin Black e Silas Pinheiro
Direção de fotografia: Anderson Craveiro
Direção de arte: Beatriz Xavier
Montagem: Guilherme Xavier Ribeiro
Figurino: Ariadne da Cruz
Produção executiva: Guilherme Peraro, Guilherme Xavier Ribeiro, Luca Cabriolu e Olivier Chantriaux
Produção: Oeste Cinema
Coprodução: Kinopus e Filmo 2
Apoio: Polo Audiovisual do Velho Oeste
Distribuição em festivais: Fernanda Etzberger

PRÊMIOS — 59º FESTIVAL DE BRASÍLIA

Melhor Curta-Metragem — Júri Oficial
Melhor Ator — Gerin Black
Melhor Trilha Sonora — Guilherme Xavier Ribeiro e Daniel Rone
Prêmio Abraccine — Melhor Curta-Metragem
Prêmio Canal Brasil de Curtas