Na manhã de 16 de julho de 1944, o navio norte-americano General Mann atracou no porto de Nápoles, no sul da Itália. A bordo estavam os primeiros integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB), enviados para combater o nazifascismo na Europa. Era a chegada do Brasil ao principal teatro de operações da Segunda Guerra Mundial, um momento que marcaria definitivamente a história das Forças Armadas brasileiras e projetaria o país no esforço internacional que culminaria na derrota da Alemanha de Adolf Hitler e da Itália de Benito Mussolini.

Ao longo dos meses seguintes, cerca de 25 mil soldados brasileiros lutariam na Campanha da Itália ao lado do V Exército dos Estados Unidos, enfrentando algumas das mais difíceis batalhas travadas nos Apeninos. A participação brasileira resultaria em importantes vitórias militares, como a conquista de Monte Castello, Montese, Castelnuovo e Fornovo di Taro, além da captura de milhares de soldados alemães e italianos.

Mais do que uma contribuição militar, a campanha italiana representou um momento de afirmação internacional do Brasil. Pela primeira vez, tropas brasileiras combatiam em larga escala em território europeu, inserindo o país entre os protagonistas da vitória aliada contra os regimes fascistas.

Da neutralidade à guerra

Quando a Segunda Guerra Mundial começou, em setembro de 1939, o governo de Getúlio Vargas adotou inicialmente uma posição de neutralidade.

O Brasil mantinha relações diplomáticas e comerciais tanto com os Estados Unidos quanto com Alemanha e Itália. Essa postura refletia o complexo cenário internacional e os interesses econômicos brasileiros, especialmente na exportação de matérias-primas.

A situação começou a mudar após o ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, e a entrada formal dos Estados Unidos na guerra.

A posição estratégica do Nordeste brasileiro tornou-se fundamental para os Aliados, que utilizaram bases aéreas em cidades como Natal e Recife para transportar tropas e equipamentos rumo à África e à Europa.

Os ataques aos navios brasileiros

O fator decisivo para a entrada do Brasil no conflito foi a campanha de ataques promovida pelos submarinos alemães no Atlântico Sul.

Em agosto de 1942, diversos navios mercantes brasileiros foram torpedeados em poucos dias, provocando a morte de mais de 600 civis.

A indignação tomou conta do país.

Grandes manifestações populares exigiram uma resposta do governo.

Em 22 de agosto de 1942, o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália.

A partir desse momento, iniciou-se a preparação para enviar tropas ao front europeu.

O nascimento da Força Expedicionária Brasileira

Criada oficialmente em 1943, a FEB enfrentou enormes desafios antes mesmo de embarcar.

O Exército brasileiro precisou adaptar-se rapidamente aos padrões modernos de guerra.

Milhares de soldados passaram por intenso treinamento, receberam novos equipamentos fornecidos pelos Estados Unidos e aprenderam técnicas de combate em terreno montanhoso.

A força expedicionária foi comandada pelo general João Baptista Mascarenhas de Moraes, enquanto a artilharia esteve sob o comando do general Cordeiro de Farias, que mais tarde se destacaria na política nacional.

Ao todo, aproximadamente 25.800 militares brasileiros integraram a FEB durante a campanha.

O desembarque em Nápoles

Em 16 de julho de 1944, o primeiro contingente chegou ao porto de Nápoles.

A cidade ainda carregava profundas marcas da guerra.

Bombardeios haviam destruído parte significativa da infraestrutura urbana, enquanto milhares de civis enfrentavam dificuldades para sobreviver.

Para muitos soldados brasileiros, era o primeiro contato direto com uma Europa devastada pelo conflito.

Após o desembarque, a FEB iniciou um período de adaptação e treinamento junto às forças norte-americanas antes de seguir para as linhas de combate na região montanhosa dos Apeninos.

“A cobra vai fumar”

Durante os primeiros anos da guerra, era comum ouvir no Brasil a frase de que seria “mais fácil uma cobra fumar cachimbo do que o Brasil entrar na guerra”.

Quando a FEB finalmente embarcou rumo à Europa, os próprios soldados transformaram a ironia em símbolo de orgulho.

Nascia o famoso lema:

“A cobra vai fumar.”

O emblema mostrava uma cobra verde fumando um cachimbo e tornou-se um dos símbolos militares mais conhecidos da história brasileira.

Até hoje, a expressão permanece incorporada ao vocabulário popular para indicar que uma situação decisiva ou difícil finalmente chegou.

As grandes batalhas

O inverno italiano impôs condições extremamente severas às tropas brasileiras.

Frio intenso, neve, terreno montanhoso e forte resistência alemã dificultavam o avanço aliado.

A batalha mais emblemática ocorreu em Monte Castello.

Após várias tentativas frustradas realizadas por forças aliadas, a FEB conquistou a posição em 21 de fevereiro de 1945, abrindo caminho para o avanço rumo ao norte da Itália.

Outras operações importantes incluíram a tomada de Montese, palco de violentos combates urbanos, e a ofensiva final que culminou na captura da 148ª Divisão de Infantaria alemã e de unidades italianas fascistas em Fornovo di Taro, em abril de 1945.

Ao todo, cerca de 20 mil soldados inimigos renderam-se às tropas brasileiras, uma das maiores capitulações obtidas por forças aliadas na campanha italiana.

O preço da vitória

A campanha custou caro.

Dos cerca de 25 mil militares enviados, 465 brasileiros morreram em combate.

Centenas ficaram feridos.

Inicialmente, os mortos foram sepultados no Cemitério Militar Brasileiro de Pistoia, na Itália.

Em 1960, seus restos mortais foram trasladados para o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro, onde permanecem homenageados.

A volta ao Brasil e seus efeitos políticos

A experiência da guerra produziu profundas consequências para o Brasil.

Milhares de soldados retornaram trazendo contato direto com democracias consolidadas e com os ideais de liberdade pelos quais haviam lutado na Europa.

A participação brasileira ao lado das nações democráticas fortaleceu pressões internas pelo fim do Estado Novo, regime autoritário implantado por Getúlio Vargas em 1937.

Poucos meses após o término da guerra, Vargas seria deposto por um movimento militar, abrindo caminho para a redemocratização do país e para as eleições de 1945.

Um legado que permanece vivo

Mais de oito décadas depois, a Força Expedicionária Brasileira continua ocupando um lugar singular na memória nacional. Sua atuação demonstrou que um país até então periférico no cenário militar internacional podia contribuir de forma efetiva para uma das maiores operações da história contemporânea.

O desembarque em Nápoles, em 16 de julho de 1944, foi o primeiro passo de uma campanha que consolidou o Brasil entre as nações aliadas vitoriosas na Segunda Guerra Mundial. A coragem dos “pracinhas”, como ficaram conhecidos os soldados da FEB, permanece como símbolo da luta contra o nazifascismo e da defesa da liberdade em um dos momentos mais sombrios do século XX.

Ao recordar essa data, o Brasil homenageia não apenas os militares que combateram na Itália, mas também uma geração que enfrentou os horrores da guerra em nome da derrota do totalitarismo e da construção de uma ordem internacional baseada na paz e na cooperação entre os povos.

Informações do 247