Em 10 de agosto de 1792, a Revolução Francesa viveu um de seus momentos mais decisivos. Milhares de insurgentes parisienses, apoiados por integrantes da Guarda Nacional e pelos chamados fédérés, avançaram sobre o Palácio das Tulherias, residência da família real em Paris. A jornada terminou com a suspensão do rei Luís XVI e, na prática, com o colapso da monarquia francesa.

Mais do que uma mudança de governo, a queda da monarquia representou uma transformação profunda na concepção do poder político. O princípio segundo o qual a autoridade emanava do rei por direito dinástico e divino começava a ser substituído, de maneira radical, pela ideia de que a legitimidade política deveria ter como fundamento a nação e a soberania popular.

O episódio de 10 de agosto abriu caminho para a proclamação da República poucas semanas depois e tornou-se um dos grandes marcos da longa transição histórica entre o Antigo Regime europeu e a política moderna.

Uma revolução que havia começado três anos antes

A Revolução Francesa teve início em 1789 em meio a uma profunda crise econômica, fiscal, social e política. A sociedade francesa estava dividida em ordens, com privilégios reservados principalmente à nobreza e ao clero, enquanto grande parte da carga tributária recaía sobre o chamado Terceiro Estado.

A convocação dos Estados Gerais por Luís XVI desencadeou uma dinâmica política que rapidamente escapou ao controle da Coroa. A formação da Assembleia Nacional, a tomada da Bastilha em 14 de julho de 1789 e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão alteraram os fundamentos do sistema político francês.

A famosa formulação da Declaração de 1789 estabelecia que “os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos”. Era uma afirmação revolucionária em uma sociedade estruturada durante séculos sobre privilégios jurídicos e diferenças determinadas pelo nascimento.

A monarquia, entretanto, não desapareceu imediatamente. A Constituição de 1791 instituiu uma monarquia constitucional e manteve Luís XVI como chefe de Estado, embora com poderes limitados.

O compromisso duraria pouco.

A confiança no rei entra em colapso

Um dos acontecimentos que mais desgastaram a imagem de Luís XVI foi a tentativa de fuga da família real em junho de 1791. O rei pretendia deixar Paris, mas foi reconhecido e detido em Varennes.

O episódio produziu uma ruptura política e simbólica. Para setores cada vez maiores da população, o monarca deixava de ser visto como parte possível da nova ordem constitucional e passava a ser considerado um adversário da própria Revolução.

Ao mesmo tempo, a situação internacional tornou-se explosiva. As monarquias europeias acompanhavam com preocupação o processo revolucionário francês, temendo que suas ideias atravessassem as fronteiras.

Em abril de 1792, a França declarou guerra à Áustria. A Prússia também entrou no conflito. As derrotas militares iniciais francesas aumentaram as suspeitas de que a Corte desejava uma vitória estrangeira capaz de restaurar plenamente o poder monárquico.

A tensão atingiu um novo patamar com o Manifesto de Brunswick, divulgado no verão de 1792. O comandante das forças austro-prussianas ameaçava Paris com severas consequências caso a família real fosse atacada.

O efeito político foi contrário ao pretendido.

Em vez de intimidar os revolucionários, a ameaça fortaleceu entre muitos franceses a percepção de que a sobrevivência da monarquia estava associada à intervenção das potências estrangeiras.

O 10 de agosto

Na madrugada de 10 de agosto, revolucionários provenientes das seções de Paris, sans-culottes, integrantes da Guarda Nacional e voluntários vindos de outras regiões avançaram em direção às Tulherias.

O rei e sua família abandonaram o palácio e buscaram proteção junto à Assembleia Legislativa.

Nas Tulherias, porém, ocorreu um confronto particularmente sangrento. Os guardas suíços encarregados da proteção do palácio enfrentaram os insurgentes e sofreram pesadas baixas.

Politicamente, a monarquia não sobreviveria àquela jornada.

A Assembleia Legislativa suspendeu Luís XVI de suas funções e determinou a convocação de uma nova assembleia constituinte, a Convenção Nacional.

O rei estava politicamente derrotado.

A partir daquele momento, a questão central já não era mais como limitar os poderes da monarquia, mas qual regime deveria substituí-la.

Da soberania do rei à soberania da nação

É nesse aspecto que o 10 de agosto possui importância histórica muito maior do que a simples derrubada de um governante.

Durante séculos, grande parte da Europa havia sido organizada em torno de monarquias nas quais a legitimidade política estava associada à dinastia, à tradição e, frequentemente, ao direito divino dos reis.

A Revolução Francesa colocou outro princípio no centro da política: a soberania nacional.

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão já afirmara em 1789: “O princípio de toda soberania reside essencialmente na nação”.

As consequências dessa ideia seriam gigantescas.

Se a soberania pertence à nação, o governante deixa de ser proprietário do Estado. Sua legitimidade passa a depender de uma ordem política construída pela sociedade.

Esse princípio atravessaria os séculos seguintes e influenciaria movimentos republicanos, constitucionais, democráticos e de independência em diversas partes do mundo.

Nasce a República francesa

Depois do 10 de agosto, os acontecimentos se aceleraram.

Foram realizadas eleições para a Convenção Nacional, que se reuniu pela primeira vez em setembro de 1792.

Em 21 de setembro, a Convenção aboliu formalmente a monarquia. No dia seguinte, a França passou a contar os anos a partir do nascimento da República.

Luís XVI seria posteriormente julgado pela Convenção, considerado culpado de conspiração contra a liberdade pública e executado na guilhotina em 21 de janeiro de 1793.

A Revolução entraria então em uma fase ainda mais radical, marcada pela guerra contra as potências europeias, por conflitos internos, disputas entre diferentes correntes revolucionárias e pelo período posteriormente conhecido como Terror.

A queda da monarquia, portanto, não significou a imediata construção de uma democracia estável. A própria França ainda passaria pelo Diretório, pelo Consulado e pelo Império de Napoleão Bonaparte, além de novas experiências monárquicas durante o século XIX.

Um acontecimento que ultrapassou as fronteiras francesas

Apesar das contradições posteriores, o impacto histórico da Revolução Francesa foi extraordinário.

Conceitos como cidadania, igualdade perante a lei, soberania nacional, Constituição e direitos políticos ganharam uma dimensão inédita. O nascimento deixou progressivamente de ser considerado fundamento suficiente para justificar privilégios políticos.

As ideias revolucionárias circularam pela Europa, pelo Caribe e pelas Américas, influenciando movimentos políticos, revoltas, processos de independência e debates sobre escravidão, cidadania e representação.

A própria universalidade proclamada pela Revolução revelou profundas contradições. Mulheres continuavam excluídas de grande parte dos direitos políticos, e a França ainda mantinha a escravidão em suas colônias — abolida pela Convenção em 1794, restaurada por Napoleão em 1802 e definitivamente extinta nos territórios franceses apenas em 1848.

Essas contradições também alimentaram novas lutas pela ampliação do significado de liberdade e igualdade.

O legado de 10 de agosto

Mais de dois séculos depois, o 10 de agosto de 1792 permanece como uma das grandes datas da história política moderna porque simboliza uma mudança na própria origem atribuída ao poder.

A jornada das Tulherias demonstrou que uma instituição política existente havia séculos poderia perder sua legitimidade quando uma parcela decisiva da sociedade deixasse de reconhecer nela a expressão da vontade nacional.

A monarquia francesa ainda teria breves restaurações no século XIX, mas o mundo político que sustentava o absolutismo já havia sido profundamente abalado.

O princípio revolucionário de que a soberania não pertence a uma família, a uma dinastia ou a um monarca, mas à nação e aos cidadãos, tornou-se uma das ideias fundamentais da modernidade política.

Por isso, o 10 de agosto de 1792 não foi apenas o dia da queda de Luís XVI. Foi um dos momentos em que a história começou a transferir, de forma irreversível, a fonte da legitimidade política do trono para o povo.

Informações do 247