Em 18 de agosto de 1964, há 62 anos, a África do Sul era afastada dos Jogos Olímpicos de Tóquio em razão da política de segregação racial imposta pelo apartheid. A exclusão representou um marco na crescente mobilização internacional contra o regime sul-africano e mostrou que o esporte também poderia se transformar em instrumento de pressão política contra o racismo institucionalizado.
Segundo a South African History Online, o Comitê Olímpico Internacional (COI) havia determinado no ano anterior que a África do Sul deveria eliminar a discriminação racial no esporte para participar dos Jogos de 1964. Como o governo sul-africano se recusou a aceitar uma política esportiva verdadeiramente multirracial, o país acabou não sendo convidado para a Olimpíada de Tóquio. (South African History Online?)
A decisão teve consequências que ultrapassaram o universo esportivo. A partir daquele momento, o isolamento da África do Sul nas competições internacionais passaria a fazer parte de uma estratégia mais ampla de combate ao apartheid, ao lado de campanhas por sanções econômicas, boicotes culturais e pressão diplomática.
O apartheid também dominava o esporte
Instituído oficialmente a partir de 1948 pelo governo do Partido Nacional, o apartheid organizava a sociedade sul-africana segundo uma rígida hierarquia racial.
Negros, mestiços e asiáticos eram submetidos a uma extensa rede de leis discriminatórias que determinava onde poderiam morar, estudar, trabalhar e circular. A separação racial alcançava escolas, hospitais, transportes, praias, espaços públicos e também as competições esportivas.
No esporte, clubes e federações eram organizados segundo critérios raciais, e apenas as estruturas dominadas por brancos tinham acesso efetivo às instâncias olímpicas internacionais.
Durante anos, a África do Sul enviou delegações segregadas aos Jogos Olímpicos. A pressão contra essa situação, entretanto, aumentou durante as décadas de 1950 e 1960.
Atletas negros e organizações esportivas não raciais começaram a denunciar internacionalmente a impossibilidade de competir em igualdade de condições dentro do próprio país.
A South African History Online registra que organizações esportivas passaram, ainda nos anos 1950, a questionar formalmente as relações com entidades segregacionistas sul-africanas. Em 1959 surgiu a South Africa Sports Association, organização não racial que defendia o direito de todos os atletas do país à participação internacional. (South African History Online?)
O movimento contra o apartheid chega ao COI
Em 1963, foi criado o South African Non-Racial Olympic Committee, conhecido pela sigla SANROC, que passou a pressionar diretamente o movimento olímpico internacional pela exclusão das entidades vinculadas ao sistema segregacionista.
Entre seus principais dirigentes estava Dennis Brutus, poeta e ativista sul-africano que se tornaria uma das figuras mais importantes da campanha internacional contra o apartheid no esporte.
Brutus sofreu perseguição das autoridades sul-africanas, teve sua liberdade de circulação restringida e posteriormente foi preso. Ele também esteve encarcerado em Robben Island, prisão que se tornaria mundialmente conhecida por manter Nelson Mandela e outros dirigentes da luta contra o apartheid. (South African History Online?)
A pressão do SANROC e de movimentos internacionais levou o COI a endurecer sua posição.
Em uma reunião realizada em 1963, o Comitê Olímpico Internacional estabeleceu que a entidade olímpica sul-africana deveria conseguir do governo uma mudança na política de discriminação racial no esporte.
A exigência deveria inicialmente ser cumprida até 31 de dezembro de 1963.
O prazo acabou sendo ampliado, mas o governo não aceitou abandonar a estrutura segregacionista. (South African History Online?)
Tentativa de contornar a pressão internacional
Diante do risco de exclusão, autoridades esportivas sul-africanas tentaram apresentar mudanças que preservassem, na prática, aspectos fundamentais do apartheid.
Em 1964, foram realizados processos separados de seleção para atletas brancos e negros. A delegação projetada para Tóquio chegou a incluir atletas negros, mas o sistema continuava organizado segundo critérios raciais.
Segundo registros históricos da South African History Online, o governo admitia conceder passaportes aos integrantes da equipe, mas mantinha condições discriminatórias, incluindo restrições à convivência entre atletas negros e brancos. (South African History Online?)
A tentativa não convenceu o movimento internacional.
A África do Sul acabou excluída dos Jogos de Tóquio.
Foi a primeira Olimpíada em que o país deixou de participar em consequência direta de sua política de apartheid. (Wikipedia?)
Esporte vira frente de luta política
A exclusão de 1964 revelou uma mudança importante na luta internacional contra o apartheid.
Até então, dirigentes esportivos frequentemente defendiam a ideia de que esporte e política deveriam permanecer separados.
Para os movimentos antirracistas, porém, essa separação era impossível quando o próprio Estado determinava quem podia competir, representar o país ou compartilhar instalações esportivas com base na cor da pele.
A palavra de ordem que ganharia força nos anos seguintes sintetizava essa posição: não poderia haver esporte normal em uma sociedade organizada de maneira anormal pela segregação racial.
O boicote esportivo tornou-se, assim, uma das ferramentas de isolamento internacional da África do Sul.
Federações, atletas, governos e movimentos sociais passaram a pressionar pela exclusão do país de campeonatos, torneios e eventos internacionais.
Pressão de países africanos
A independência de diversas nações africanas durante as décadas de 1950 e 1960 também alterou a correlação de forças dentro das organizações esportivas internacionais.
Os novos Estados independentes passaram a exercer pressão política contra a presença da África do Sul segregacionista nas grandes competições.
O tema deixou de ser apresentado apenas como uma questão interna sul-africana e passou a ser tratado como um problema internacional de racismo e direitos humanos.
Em 1968, chegou a haver uma tentativa de reintegrar a África do Sul aos Jogos Olímpicos da Cidade do México após algumas concessões feitas pelo governo.
A reação foi imediata.
Países africanos ameaçaram boicotar a competição caso a África do Sul participasse, e o COI acabou retirando novamente o convite. (South African History Online?)
Expulsão do movimento olímpico
O isolamento se aprofundou.
Em 1970, o Comitê Olímpico Nacional sul-africano foi formalmente expulso do COI. A decisão consolidou a exclusão do país do movimento olímpico durante a era do apartheid. (Wikipedia?)
A África do Sul ficaria ausente de sucessivas edições dos Jogos.
Ao mesmo tempo, o boicote esportivo passou a integrar uma campanha internacional muito mais ampla.
Artistas eram pressionados a não se apresentar no país. Empresas passaram a enfrentar campanhas pelo desinvestimento. Universidades, sindicatos, organizações políticas e movimentos sociais cobravam sanções.
O regime encontrava cada vez mais dificuldade para manter relações normais com o restante do mundo.
Mandela e o isolamento do apartheid
Nesse mesmo período, Nelson Mandela e outros líderes do Congresso Nacional Africano enfrentavam a repressão do regime.
Mandela havia sido preso em 1962 e, após o julgamento de Rivonia, foi condenado à prisão perpétua em 1964.
Enquanto Mandela e outros dirigentes permaneciam presos, o movimento contra o apartheid avançava tanto dentro quanto fora da África do Sul.
O isolamento esportivo possuía forte dimensão simbólica.
O esporte era uma das áreas de maior projeção internacional do país e também uma fonte de identidade para parte significativa da população branca. A impossibilidade de disputar algumas das principais competições do mundo fazia com que os efeitos do apartheid fossem sentidos também por setores que poderiam considerar a segregação uma questão distante de seu cotidiano.
O retorno depois do apartheid
As mudanças começaram a se acelerar no final da década de 1980 e início dos anos 1990.
Nelson Mandela foi libertado em fevereiro de 1990, depois de 27 anos de prisão.
O governo iniciou negociações que levariam ao desmonte jurídico do apartheid e à construção de um sistema político baseado no sufrágio universal.
Em 1991, diante do processo de transição para uma ordem democrática e não racial, a África do Sul foi readmitida no Comitê Olímpico Internacional. (Wikipedia?)
No ano seguinte, o país voltou aos Jogos Olímpicos, em Barcelona, após quase três décadas de ausência.
Em 1994, os sul-africanos participaram das primeiras eleições nacionais democráticas com direito de voto para a população negra.
Nelson Mandela foi eleito presidente.
Quando o esporte deixou de ser neutro
O episódio de 18 de agosto de 1964 permanece como uma das demonstrações históricas mais importantes de como o esporte pode refletir conflitos políticos e sociais muito além das competições.
A exclusão olímpica, isoladamente, não derrubou o apartheid. Mas ajudou a ampliar o custo internacional de sua manutenção.
O governo sul-africano passou a enfrentar uma situação em que sua política racial impedia o país de participar plenamente de instituições e eventos que conferiam reconhecimento e prestígio internacional.
A pressão se somou às mobilizações internas, às campanhas diplomáticas, aos boicotes econômicos e culturais e à resistência protagonizada pela população negra sul-africana.
Há 62 anos, a exclusão dos Jogos de Tóquio mostrou que, diante de um sistema baseado legalmente na discriminação racial, a alegada neutralidade do esporte também começava a perder espaço para uma posição internacional cada vez mais clara contra o apartheid. Informações do 247



