A incorporação do Havaí ao território dos Estados Unidos foi resultado de um longo processo marcado por interesses econômicos, disputa geopolítica, pressão de empresários norte-americanos e pela derrubada de uma monarquia nativa que governava o arquipélago no Pacífico. Muito antes de se tornar o 50º estado norte-americano, em 1959, o Havaí já ocupava posição estratégica para Washington: era um ponto avançado no meio do oceano, fundamental para o comércio, para a projeção militar e para a expansão dos Estados Unidos em direção à Ásia.
O contato crescente entre havaianos e estrangeiros começou no fim do século XVIII, após a chegada de navegadores europeus. Ao longo do século XIX, missionários, comerciantes e fazendeiros norte-americanos passaram a exercer influência cada vez maior sobre a economia local, especialmente com a expansão das plantações de açúcar. Grandes proprietários ligados aos Estados Unidos passaram a dominar setores estratégicos da vida econômica havaiana e pressionaram a monarquia local por medidas favoráveis aos seus negócios.
O ponto de virada ocorreu em 1893, quando a rainha Lili?uokalani, última monarca do Havaí, tentou aprovar uma nova Constituição para restaurar poderes da Coroa e ampliar a soberania política dos havaianos nativos. A reação dos empresários estrangeiros foi imediata. Com apoio de setores norte-americanos instalados no arquipélago e presença de forças dos Estados Unidos em Honolulu, a rainha foi deposta. Formou-se então um governo provisório liderado por Sanford Dole, representante dos interesses dos fazendeiros e empresários brancos.
A deposição da monarquia foi profundamente controversa. A rainha Lili?uokalani protestou contra o golpe e afirmou que abdicava temporariamente sob pressão, esperando que Washington restaurasse a legalidade. O então presidente dos Estados Unidos, Grover Cleveland, reconheceu que a derrubada da monarquia havia sido injusta e tentou reverter a situação, mas o novo governo instalado no Havaí resistiu. Em 1894, os golpistas proclamaram a República do Havaí.
Nos anos seguintes, a pressão pela anexação aumentou. Para os grandes produtores de açúcar, tornar o Havaí parte dos Estados Unidos significava acesso privilegiado ao mercado norte-americano. Para estrategistas militares, o arquipélago era uma peça-chave no Pacífico, especialmente por causa de Pearl Harbor, que se tornaria uma das bases navais mais importantes do mundo.
Em 7 de julho de 1898, no contexto da Guerra Hispano-Americana e da expansão dos Estados Unidos sobre o Caribe e o Pacífico, o Congresso norte-americano aprovou a Resolução Newlands, que anexou oficialmente o Havaí. Dois anos depois, em 1900, o arquipélago passou a ser administrado como território dos Estados Unidos.
A transformação do Havaí em território norte-americano não apagou as resistências locais. Muitos havaianos nativos se opuseram à anexação e denunciaram a perda de soberania de seu povo. Décadas depois, essa memória histórica seguiria viva em movimentos de afirmação cultural, defesa da identidade havaiana e reivindicação de reparações.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o valor estratégico do Havaí tornou-se ainda mais evidente. O ataque japonês a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, levou os Estados Unidos à guerra e colocou o arquipélago no centro da história mundial. Depois do conflito, cresceu o movimento pela transformação do território em estado.
Em 1959, após um plebiscito, o Havaí foi admitido como o 50º estado dos Estados Unidos. A narrativa oficial norte-americana costuma apresentar esse processo como integração democrática. Mas, para muitos historiadores e ativistas havaianos, a história começou com a deposição de uma rainha legítima e com a imposição dos interesses econômicos e militares de uma potência estrangeira.
Assim, a história de como o Havaí se tornou parte dos Estados Unidos é também a história da expansão imperial norte-americana no fim do século XIX. O arquipélago deixou de ser um reino independente para se transformar em peça estratégica de Washington no Pacífico — primeiro como território anexado, depois como estado. Por trás das praias paradisíacas e da imagem turística mundialmente conhecida, permanece uma trajetória marcada por colonização, resistência e disputa pela memória histórica.



