Em 10 de julho de 1940, uma das datas mais dramáticas da história francesa, a Assembleia Nacional reunida na cidade de Vichy concedeu plenos poderes constitucionais ao marechal Philippe Pétain, herói da Primeira Guerra Mundial. A decisão marcou o fim da Terceira República e o nascimento do chamado Estado Francês, mais conhecido como regime de Vichy, que colaboraria ativamente com a ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial.

A votação ocorreu poucas semanas após a rápida derrota militar da França diante da ofensiva da Alemanha nazista. Em menos de dois meses, as tropas de Adolf Hitler haviam ocupado Paris e grande parte do território francês, obrigando o governo a assinar um armistício em 22 de junho de 1940. A partir daí, o país foi dividido: o norte permaneceu sob ocupação militar alemã, enquanto o sul passou a ser administrado pelo novo governo instalado em Vichy, uma cidade termal localizada na região central da França.

Embora formalmente mantivesse alguma autonomia, o regime tornou-se um aliado político e administrativo da Alemanha nazista, abandonando os princípios republicanos de liberdade, igualdade e fraternidade que haviam marcado a tradição francesa desde a Revolução de 1789.

O fim da democracia francesa

A aprovação dos poderes extraordinários a Pétain representou uma ruptura institucional profunda. Dos parlamentares presentes, 569 votaram a favor, 80 contra e cerca de vinte se abstiveram ou não participaram da sessão.

Com a nova Constituição jamais plenamente promulgada, Pétain passou a governar por decretos, dissolvendo o sistema democrático. Os partidos políticos perderam espaço, o Parlamento deixou de funcionar normalmente e foi implantado um regime autoritário baseado no lema “Trabalho, Família, Pátria”, substituindo o tradicional ideal republicano de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”.

O governo justificava suas medidas como parte de uma “Revolução Nacional”, que prometia reconstruir moralmente a França após a derrota militar, mas, na prática, consolidou um Estado autoritário alinhado aos interesses do Terceiro Reich.

A colaboração com o nazismo

Ao longo da guerra, Vichy foi muito além de uma administração subordinada. O governo francês colaborou ativamente com a Alemanha em diversas áreas.

Autoridades francesas participaram da perseguição a opositores políticos, comunistas, sindicalistas e membros da Resistência. Também implementaram legislação antissemita própria, excluindo judeus de cargos públicos, universidades e diversas profissões, mesmo antes de algumas exigências formais feitas pelos ocupantes alemães.

Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em julho de 1942, durante a chamada Rafle du Vel’ d’Hiv, quando mais de 13 mil judeus, incluindo milhares de crianças, foram presos pela própria polícia francesa em Paris antes de serem enviados para campos de extermínio nazistas, sobretudo Auschwitz.

Décadas depois, esse episódio seria reconhecido oficialmente como responsabilidade do Estado francês.

A Resistência e Charles de Gaulle

Nem toda a França aceitou o governo de Vichy. Desde junho de 1940, o general Charles de Gaulle, exilado em Londres, conclamava os franceses a continuar a luta contra o nazismo por meio da célebre transmissão da BBC conhecida como Apelo de 18 de Junho.

Ao longo dos anos seguintes, movimentos clandestinos de resistência cresceram dentro do território francês, promovendo ações de inteligência, sabotagem e apoio aos Aliados.

Após o desembarque aliado na Normandia, em junho de 1944, as forças alemãs começaram a recuar. Paris foi libertada em agosto daquele ano, e o governo de Vichy entrou em colapso.

O julgamento de Pétain

Terminada a guerra, Philippe Pétain foi preso e julgado por alta traição.

Em agosto de 1945, foi condenado à morte. Em razão de sua idade avançada e de seu passado como comandante vitorioso da Batalha de Verdun na Primeira Guerra Mundial, o general Charles de Gaulle comutou a pena para prisão perpétua.

Pétain morreu em 1951, aos 95 anos, na Ilha de Yeu, onde permaneceu encarcerado.

Um trauma permanente na memória francesa

Durante muitos anos, a França preferiu enfatizar o heroísmo da Resistência e minimizar o grau de colaboração do regime de Vichy com o nazismo.

Essa narrativa começou a mudar a partir das décadas de 1970 e 1980, impulsionada por novas pesquisas históricas. Em 1995, o presidente Jacques Chirac reconheceu oficialmente a responsabilidade do Estado francês pela deportação de judeus durante a ocupação nazista, rompendo com a posição adotada por governos anteriores.

Hoje, o regime de Vichy é amplamente estudado como um dos exemplos mais emblemáticos de colaboração estatal com o nazismo na Europa ocupada. Sua história permanece como um alerta sobre a fragilidade das instituições democráticas em períodos de crise e sobre as consequências políticas e humanas da submissão ao autoritarismo.

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