Em 9 de agosto de 1936, o velocista norte-americano Jesse Owens conquistava sua quarta medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Berlim. Aos 22 anos, o atleta negro venceu com a equipe dos Estados Unidos o revezamento 4 x 100 metros e encerrou uma das participações individuais mais extraordinárias da história olímpica. O feito ganharia um significado que ultrapassaria definitivamente as pistas: Owens triunfou no coração da Alemanha nazista, diante de um regime que proclamava abertamente teorias racistas e pretendia transformar a Olimpíada em demonstração da suposta superioridade ariana.

Segundo registros históricos do Comitê Olímpico Internacional e do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, os Jogos de Berlim foram utilizados pelo governo de Adolf Hitler como uma gigantesca operação de propaganda. A Alemanha pretendia exibir ao mundo uma imagem de força, organização e prosperidade, enquanto a perseguição aos judeus e a construção do Estado racial nazista já estavam em andamento.

Foi nesse cenário que Jesse Owens venceu quatro provas.

Primeiro, os 100 metros. Depois, o salto em distância. Em seguida, os 200 metros. Finalmente, em 9 de agosto, o revezamento 4 x 100 metros.

Quatro provas. Quatro medalhas de ouro.

O desempenho do norte-americano transformou-se em uma poderosa contradição diante da ideologia racial promovida pelo regime que sediava os Jogos.

Hitler queria transformar Berlim em vitrine do nazismo

Quando Berlim foi escolhida para receber os Jogos Olímpicos, em 1931, Hitler ainda não governava a Alemanha. Dois anos depois, porém, os nazistas chegaram ao poder e rapidamente transformaram o Estado alemão.

Em 1935, as Leis de Nuremberg institucionalizaram a discriminação racial contra os judeus. Direitos civis foram retirados e a perseguição passou a fazer parte formal da legislação do Terceiro Reich.

A Olimpíada oferecia ao regime uma oportunidade excepcional de melhorar sua imagem internacional.

Durante os Jogos, manifestações mais explícitas da perseguição antissemita foram temporariamente reduzidas em áreas frequentadas por estrangeiros. Placas e símbolos que poderiam constranger visitantes foram retirados de determinados espaços. O objetivo era apresentar uma Alemanha moderna, pacífica e eficiente.

O regime investiu pesadamente na organização do evento.

A cineasta Leni Riefenstahl recebeu condições extraordinárias para registrar os Jogos no filme Olympia, uma das mais sofisticadas produções cinematográficas de propaganda esportiva daquele período.

O espetáculo deveria demonstrar a grandeza da nova Alemanha.

Jesse Owens apareceu como uma realidade inconveniente dentro dessa narrativa.

Quatro ouros em seis dias

Owens chegou a Berlim como uma das maiores estrelas do atletismo mundial.

Um ano antes, em 25 de maio de 1935, havia protagonizado um dos episódios mais impressionantes da história do esporte. Em uma competição universitária em Ann Arbor, Michigan, estabeleceu ou igualou diversos recordes mundiais em um intervalo de aproximadamente 45 minutos.

Em Berlim, confirmou seu extraordinário talento.

No dia 3 de agosto, conquistou o ouro nos 100 metros.

No dia seguinte, venceu o salto em distância.

Em 5 de agosto, conquistou sua terceira medalha dourada ao ganhar os 200 metros.

Faltava o revezamento.

Em 9 de agosto, Owens integrou a equipe norte-americana ao lado de Ralph Metcalfe, Foy Draper e Frank Wykoff. Os Estados Unidos venceram os 4 x 100 metros e estabeleceram um recorde mundial de 39,8 segundos.

Era o quarto ouro de Owens.

Nenhum atleta havia conseguido antes conquistar quatro medalhas de ouro no atletismo em uma única edição dos Jogos Olímpicos.

Seu recorde só seria igualado 48 anos depois, pelo também norte-americano Carl Lewis, nos Jogos de Los Angeles de 1984.

Uma vitória diante da ideologia racial nazista

As vitórias de Owens adquiriram uma força simbólica extraordinária porque aconteceram diante de um regime que havia colocado o racismo no centro de sua concepção de Estado.

A doutrina nazista classificava seres humanos segundo critérios raciais pseudocientíficos e atribuía aos chamados “arianos” uma posição superior.

A realidade das pistas de Berlim confrontava essa construção ideológica.

Um jovem negro, neto de pessoas escravizadas no sul dos Estados Unidos, tornava-se o maior atleta dos Jogos organizados pela Alemanha de Hitler.

O significado histórico do episódio cresceu ao longo das décadas.

Owens não derrotou sozinho o nazismo, nem suas vitórias interromperam as políticas raciais do Terceiro Reich. Poucos anos depois, a Europa mergulharia na Segunda Guerra Mundial e o regime alemão promoveria o Holocausto, assassinando seis milhões de judeus e milhões de outras vítimas.

Mas, naquele estádio construído para celebrar a grandeza nazista, os resultados esportivos produziram uma imagem que a propaganda não podia controlar.

O atleta que dominava as provas mais importantes do atletismo era exatamente alguém que a ideologia racista considerava inferior.

A história do aperto de mão com Luz Long

Um dos episódios mais marcantes da passagem de Owens por Berlim ocorreu no salto em distância.

Seu principal adversário era o alemão Luz Long, atleta que correspondia visualmente ao ideal físico exaltado pela propaganda nazista.

Owens venceu a prova com 8,06 metros. Long ficou com a prata.

O que aconteceu depois tornou-se uma das imagens mais lembradas daqueles Jogos.

O alemão cumprimentou e abraçou Owens diante do público.

Os dois desenvolveram uma relação de respeito que atravessou a competição.

Owens recordaria posteriormente Long com grande admiração. O atleta alemão morreria em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, após ser ferido na invasão aliada da Sicília.

A relação entre os dois atletas tornou-se um contraponto humano ao ambiente político que cercava os Jogos.

Em uma Olimpíada utilizada para disseminar uma visão racial da humanidade, dois competidores de países diferentes demonstravam publicamente respeito mútuo.

O mito de que Hitler recusou apertar a mão de Owens

Uma das histórias mais repetidas sobre os Jogos de 1936 afirma que Hitler teria se recusado especificamente a cumprimentar Jesse Owens depois de suas vitórias.

O episódio real é mais complexo.

No primeiro dia de competições, Hitler cumprimentou alguns vencedores, principalmente alemães. Representantes do Comitê Olímpico advertiram então que ele deveria cumprimentar todos os medalhistas ou nenhum deles.

Hitler optou por não participar mais das cerimônias individuais de congratulação.

Por isso, não houve uma situação simples em que Owens teria se aproximado do líder nazista e recebido uma recusa exclusivamente por ser negro.

A dimensão histórica das vitórias do norte-americano, porém, independe dessa narrativa.

Owens competiu e triunfou diante do principal regime explicitamente racista da Europa em uma Olimpíada que esse mesmo regime pretendia utilizar como propaganda.

Campeão em Berlim, discriminado nos Estados Unidos

Existe ainda uma contradição fundamental na história de Jesse Owens.

Ele derrotou atletas da Alemanha nazista representando um país no qual também sofria discriminação racial.

Os Estados Unidos de 1936 viviam sob a segregação racial institucionalizada em grande parte do território, especialmente nos estados do Sul.

As leis conhecidas como Jim Crow separavam negros e brancos em escolas, transportes, restaurantes, hotéis e diferentes espaços públicos.

Owens conhecia essa realidade desde a infância.

Nascido James Cleveland Owens em 12 de setembro de 1913, em Oakville, Alabama, era filho de Henry e Emma Owens e neto de pessoas escravizadas. Sua família mudou-se posteriormente para Cleveland, Ohio, durante a Grande Migração de afro-americanos do Sul para cidades industriais do Norte.

Mesmo depois de retornar dos Jogos como uma das maiores estrelas esportivas do planeta, Owens continuou enfrentando o racismo de seu próprio país.

O presidente Franklin D. Roosevelt não o recebeu na Casa Branca após as Olimpíadas.

Owens lembraria mais tarde que, embora tivesse alcançado enorme reconhecimento internacional, ainda precisava lidar com as barreiras impostas aos negros nos Estados Unidos.

Essa dimensão torna sua história ainda mais poderosa.

O homem transformado em símbolo da derrota moral do racismo nazista retornou a uma sociedade que mantinha sua própria estrutura de segregação racial.

O legado de Jesse Owens

A carreira de Owens depois de Berlim não correspondeu à fortuna ou à segurança econômica que atualmente acompanham grandes campeões olímpicos.

As rígidas regras do esporte amador da época limitaram suas possibilidades. Depois de perder seu status de atleta amador, precisou recorrer a diferentes atividades para sobreviver e chegou a participar de eventos de exibição.

Com o passar dos anos, entretanto, sua importância histórica tornou-se cada vez mais reconhecida.

Owens passou a ser lembrado não apenas pelos tempos registrados no cronômetro ou pelas distâncias alcançadas nas pistas.

Sua trajetória passou a representar algo maior.

Um atleta negro havia chegado à capital do Terceiro Reich no momento em que Hitler tentava mostrar ao planeta a força de um Estado construído sobre a hierarquia racial.

E saiu de Berlim com quatro medalhas de ouro.

Em 9 de agosto de 1936, quando cruzou a linha de chegada com a equipe norte-americana no revezamento 4 x 100 metros, Jesse Owens completou uma campanha que permanece inscrita na história do esporte.

Noventa anos depois, suas quatro vitórias continuam lembradas porque demonstraram, diante do mundo e dentro do próprio palco escolhido pelo nazismo, a falsidade de uma ideologia que pretendia dividir a humanidade entre raças superiores e inferiores. Informações do 247