Em 15 de agosto de 1947, à meia-noite, a Índia encerrou formalmente quase dois séculos de dominação britânica e iniciou uma das experiências nacionais mais extraordinárias da história contemporânea. O país que emergiu do colonialismo profundamente empobrecido, marcado pela divisão territorial e por enormes desafios sociais, tornou-se uma das maiores economias do planeta, uma potência nuclear, espacial e tecnológica e um dos principais protagonistas da construção de uma ordem internacional multipolar.

No centro da memória da independência está Mohandas Karamchand Gandhi, o Mahatma Gandhi, cuja estratégia de resistência não violenta transformou a luta indiana em referência mundial contra o colonialismo. Ao lado de personagens como Jawaharlal Nehru, Vallabhbhai Patel, Subhas Chandra Bose, B. R. Ambedkar e milhões de trabalhadores, camponeses e militantes anônimos, Gandhi ajudou a demonstrar que o maior império de seu tempo poderia ser desafiado por uma mobilização política de massas.

Quase oito décadas depois, a Índia vive outro momento de transformação histórica. Com mais de 1,4 bilhão de habitantes, uma economia em rápida expansão, crescente capacidade industrial, domínio de setores de tecnologia da informação, um ambicioso programa espacial e influência cada vez maior entre os países do Sul Global, Nova Déli reúne atributos que podem convertê-la em uma das superpotências do século XXI.

A trajetória entre 1947 e o presente conta, portanto, duas histórias interligadas: a libertação de uma das principais sociedades colonizadas pelo Ocidente e a ascensão de um país que hoje reivindica participar, em condições de maior igualdade, da definição das regras do sistema internacional.

A joia de um império

A presença britânica no subcontinente indiano foi construída progressivamente a partir do século XVII, inicialmente pela Companhia Britânica das Índias Orientais. Comércio, conquista militar, alianças com elites locais e controle territorial transformaram uma empresa comercial em instrumento de dominação política.

Depois da Rebelião Indiana de 1857, o poder passou diretamente para a Coroa britânica. Em 1858 começou oficialmente o período conhecido como Raj britânico.

A Índia tornou-se peça fundamental do poder global de Londres. Sua população, seus recursos naturais, seus impostos, seus mercados e seus soldados contribuíram decisivamente para a sustentação do Império Britânico.

A dominação colonial também reorganizou a economia indiana em benefício das necessidades imperiais. A relação entre industrialização britânica e desestruturação de atividades produtivas tradicionais indianas tornou-se um dos temas centrais da crítica nacionalista.

A independência, portanto, não significava apenas substituir administradores britânicos por governantes indianos. Para grande parte do movimento nacionalista, significava recuperar a capacidade de decidir os destinos econômicos, políticos e culturais de uma civilização submetida a uma potência estrangeira.

Gandhi transforma a independência em movimento de massas

Gandhi retornou definitivamente à Índia em 1915 depois de sua experiência política na África do Sul. Aos poucos, desenvolveu uma forma singular de mobilização baseada no satyagraha, conceito associado à força da verdade, à resistência civil e à não violência.

Sua importância histórica não se limitou a uma filosofia moral. Gandhi ajudou a transformar o nacionalismo, até então fortemente concentrado entre setores das elites, em um movimento capaz de mobilizar milhões de pessoas.

Boicotes a produtos britânicos, campanhas de desobediência civil, marchas, greves e recusas coletivas de colaboração atingiram um elemento essencial de qualquer sistema colonial: a capacidade do dominador de governar com a cooperação dos dominados.

Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu em 1930.

Para desafiar o monopólio colonial sobre o sal, Gandhi percorreu centenas de quilômetros até o litoral de Dandi. A Marcha do Sal tornou-se um espetáculo político de enorme repercussão internacional. Um produto básico da vida cotidiana foi convertido em símbolo da soberania.

Ao fabricar sal desafiando a legislação britânica, Gandhi demonstrava que a resistência ao império poderia começar nos atos mais simples.

A mensagem era poderosa: se milhões de indianos deixassem de cooperar com as estruturas coloniais, o poder britânico se tornaria progressivamente insustentável.

A não violência como instrumento político

A imagem de Gandhi tornou-se inseparável da ahimsa, ou não violência. Mas reduzir sua atuação a uma defesa abstrata do pacifismo significa ignorar a dimensão estratégica de sua política.

Gandhi procurava alterar a relação de forças.

Prisões em massa poderiam neutralizar milhares de militantes, mas também expunham o caráter coercitivo do domínio britânico. A repressão poderia dispersar manifestações, mas frequentemente ampliava a legitimidade dos nacionalistas. O boicote econômico atingia interesses materiais do império.

Sua estratégia exerceu influência muito além da Índia. Décadas depois, movimentos pelos direitos civis e contra regimes de segregação e dominação recorreriam à experiência indiana como referência.

Ao mesmo tempo, a independência não foi obra de um único homem.

O Congresso Nacional Indiano reuniu diferentes correntes e lideranças. Nehru desempenhou papel fundamental na construção de uma visão de Estado moderno e industrial. Patel foi decisivo na integração política do território. Ambedkar tornou-se personagem central na elaboração constitucional e na luta contra a opressão das castas.

Outras correntes defendiam estratégias distintas das de Gandhi. Subhas Chandra Bose, por exemplo, buscou confrontar militarmente o domínio britânico durante a Segunda Guerra Mundial.

A independência indiana foi resultado dessa ampla acumulação histórica, combinada com o enfraquecimento do Império Britânico depois da guerra.

O preço da liberdade

A vitória de 1947 veio acompanhada de uma tragédia.

A retirada britânica ocorreu juntamente com a Partição do subcontinente, que criou dois Estados independentes: Índia e Paquistão.

A divisão, marcada principalmente por linhas religiosas, desencadeou uma das maiores migrações forçadas da história contemporânea. Milhões de hindus, muçulmanos e sikhs atravessaram as novas fronteiras. A violência comunitária deixou centenas de milhares de mortos, embora as estimativas históricas variem consideravelmente.

Gandhi viveu seus últimos meses tentando conter massacres e defender a convivência entre comunidades religiosas.

Em 30 de janeiro de 1948, menos de seis meses depois da independência, foi assassinado em Nova Déli por Nathuram Godse, um extremista nacionalista hindu.

Morria Gandhi. A Índia, porém, começava a construir o Estado que ele ajudara a libertar.

Nehru e a busca pela autonomia estratégica

Jawaharlal Nehru tornou-se o primeiro chefe de governo da Índia independente e permaneceu no poder até 1964.

Seu projeto combinava democracia parlamentar, planejamento econômico, industrialização, ciência e busca por autonomia internacional.

A Índia recusou-se a aceitar que a independência política recém-conquistada fosse substituída por alinhamento automático a uma das grandes potências da Guerra Fria.

Essa visão contribuiu para a formação do Movimento dos Países Não Alinhados e permanece, sob novas formas, na política externa indiana contemporânea.

Nova Déli mantém relações estratégicas com os Estados Unidos sem romper sua histórica parceria com a Rússia. Participa do BRICS ao lado de China, Brasil e outras grandes economias emergentes, ao mesmo tempo em que mantém disputas e competição estratégica com Pequim.

Essa capacidade de dialogar simultaneamente com diferentes polos de poder é frequentemente descrita hoje como “autonomia estratégica”.

Há uma linha histórica que conecta essa política à experiência colonial: depois de conquistar com enorme dificuldade o direito de decidir seu próprio destino, a Índia procura evitar subordinação automática às estratégias de outras potências.

De país empobrecido a gigante econômico

A Índia independente herdou níveis elevados de pobreza, analfabetismo, baixa expectativa de vida e infraestrutura insuficiente.

Durante décadas, o país desenvolveu uma economia fortemente orientada pelo Estado, com planejamento, empresas públicas e proteção de setores considerados estratégicos.

A partir de 1991, uma grave crise cambial abriu caminho para reformas econômicas que ampliaram a integração internacional e a participação do setor privado.

Nas décadas seguintes, o crescimento acelerou.

A Índia tornou-se especialmente competitiva em tecnologia da informação, software e serviços empresariais. Empresas indianas passaram a operar globalmente, enquanto cidades como Bengaluru, Hyderabad, Mumbai e Gurgaon se consolidaram como polos de tecnologia, finanças e inovação.

Ao mesmo tempo, o país busca ampliar sua base industrial.

O desafio é gigantesco: transformar crescimento econômico em desenvolvimento capaz de atender às necessidades de mais de 1,4 bilhão de pessoas.

A potência tecnológica

Uma das maiores diferenças entre a Índia de 1947 e a Índia contemporânea está na capacidade científica e tecnológica.

O país formou milhões de engenheiros, cientistas, médicos e profissionais de tecnologia. Indianos passaram a ocupar posições de liderança em algumas das maiores empresas do planeta, enquanto o ecossistema doméstico de inovação ganhou dimensão global.

A transformação digital indiana também produziu uma infraestrutura pública de grande escala. Sistemas digitais de identificação e pagamentos permitiram integrar centenas de milhões de cidadãos à economia formal e criaram um laboratório de digitalização sem paralelo em escala populacional.

A inteligência artificial representa a próxima fronteira.

A Índia dispõe de três ativos fundamentais: população, capacidade tecnológica e enorme quantidade de dados. Se conseguir ampliar infraestrutura computacional, energia, fabricação avançada, formação profissional e acesso democrático à tecnologia, poderá ocupar posição central na economia mundial da IA.

Essa disputa não é apenas comercial. É também uma questão de soberania.

Assim como a independência de 1947 significou conquistar autonomia política, o século XXI coloca diante da Índia — e de outras nações do Sul Global — o desafio da soberania digital.

Da pobreza colonial à conquista da Lua

Poucos símbolos expressam tão claramente essa transformação quanto o programa espacial indiano.

Criada em 1969, a Organização Indiana de Pesquisa Espacial, a ISRO, desenvolveu uma reputação internacional por realizar missões sofisticadas com custos relativamente reduzidos.

Em 2023, a missão Chandrayaan-3 realizou um pouso controlado próximo à região do polo sul lunar, colocando a Índia entre o pequeno grupo de países capazes de pousar uma nave na Lua e tornando-a a primeira a conseguir o feito naquela região lunar.

O programa espacial possui importância científica, econômica e estratégica.

Satélites são essenciais para comunicações, meteorologia, agricultura, navegação, defesa e monitoramento territorial. O domínio dessas tecnologias amplia a autonomia nacional e cria cadeias industriais de alto valor agregado.

Para um país que conquistou a independência em meio à pobreza extrema, chegar à Lua menos de oito décadas depois possui enorme força simbólica.

O peso de 1,4 bilhão de pessoas

A demografia é simultaneamente a maior oportunidade e um dos maiores desafios da Índia.

O país ultrapassou a China como o mais populoso do planeta e possui uma população relativamente jovem. Enquanto várias grandes economias enfrentam envelhecimento acelerado, a Índia poderá contar durante décadas com uma enorme força de trabalho.

Mas o chamado dividendo demográfico não é automático.

Centenas de milhões de jovens precisam de educação, empregos produtivos, habitação, saúde, transporte, energia e acesso à tecnologia.

Caso consiga elevar significativamente a produtividade dessa população, a Índia poderá experimentar uma transformação comparável, em escala, às grandes industrializações da história.

Caso não consiga gerar empregos em velocidade suficiente, o mesmo crescimento populacional poderá ampliar tensões sociais.

O caminho para a superpotência passa necessariamente pela capacidade de transformar quantidade demográfica em capacidade humana.

Índia, Brasil e a ascensão do Sul Global

A ascensão indiana também modifica a posição do Sul Global.

Brasil e Índia compartilham características importantes: são grandes democracias, países continentais, sociedades diversas, potências agrícolas e industriais e atores que reivindicam reformas na governança internacional.

Os dois países integram o BRICS e o G20 e defendem maior representação das economias emergentes nas instituições multilaterais.

Também reivindicam mudanças na estrutura das Nações Unidas, particularmente no Conselho de Segurança, cuja composição permanente ainda reflete fundamentalmente a correlação de forças surgida da Segunda Guerra Mundial.

Uma ordem internacional em que Índia, Brasil, China, países africanos, latino-americanos e asiáticos disponham de maior capacidade de decisão seria profundamente diferente daquela construída durante os séculos de hegemonia colonial europeia e posteriormente de predominância ocidental.

Nesse sentido, a ascensão da Índia possui uma dimensão que ultrapassa suas fronteiras.

Os obstáculos no caminho da superpotência

A transformação da Índia em superpotência não está garantida.

O país ainda enfrenta desigualdade social, diferenças profundas entre regiões, desafios na educação e saúde, necessidades gigantescas de infraestrutura, poluição, escassez de água e vulnerabilidade às mudanças climáticas.

A industrialização precisará avançar ao mesmo tempo em que o sistema energético passa por transformação.

Há ainda desafios políticos. Uma sociedade composta por centenas de grupos linguísticos, religiosos e culturais depende da preservação de mecanismos capazes de administrar diferenças e conflitos dentro de instituições democráticas.

Também existe uma complexa equação geopolítica.

A Índia mantém uma longa rivalidade com o Paquistão e uma relação simultaneamente econômica, diplomática e competitiva com a China, incluindo disputas territoriais.

Ser uma grande potência exige administrar essas tensões sem permitir que elas comprometam o desenvolvimento.

O século da Índia?

Em 1947, poucos poderiam imaginar a posição que a Índia ocuparia menos de um século depois.

O país deixou de ser uma colônia central do Império Britânico para se tornar potência nuclear, espacial, tecnológica e uma das maiores economias do mundo.

Sua trajetória, porém, permanece inacabada.

A verdadeira medida da transformação indiana não será apenas o tamanho de seu Produto Interno Bruto, seu arsenal militar, suas empresas tecnológicas ou sua capacidade espacial. Será também sua capacidade de oferecer melhores condições de vida à própria população e converter poder econômico em desenvolvimento social.

É nesse ponto que a memória de Gandhi permanece atual.

A independência não representava para ele simplesmente a troca da bandeira que tremulava sobre os edifícios públicos. A liberdade precisava alcançar a vida cotidiana das pessoas e permitir que os indianos fossem protagonistas do próprio destino.

Em 15 de agosto de 1947, a Índia conquistou a soberania formal depois de uma longa luta contra um dos maiores impérios da história.

No século XXI, enfrenta uma segunda batalha histórica: transformar essa soberania em desenvolvimento, conhecimento, tecnologia e capacidade de influenciar os rumos do planeta.

Se conseguir combinar sua escala demográfica, sua tradição científica, sua força econômica, sua autonomia estratégica e sua crescente capacidade tecnológica com inclusão social e desenvolvimento humano, a antiga colônia britânica poderá completar uma das maiores inversões de poder da história moderna.

O país que Gandhi ajudou a libertar poderá se tornar uma das nações que definirão o mundo. Informações do 247